segunda-feira, 19 de março de 2007

Susan


- E como eu seria?

- Ah, você seria linda, linda... Teria os olhos azuis e o queixo quadrado do seu pai, e de mim herdaria a boca carnuda e os cabelos escuros.

- Humm... gostei! E o quê que tá faltando pra eu nascer, mamãe?

- Falta o seu pai, meu bem.

- Você não o encontrou ainda?

- Encontrei...a

- Então por que eu ainda não nasci?

- Porque eu e seu pai estamos separados, querida.

- E vocês não vão fazer as pazes?

- Eu espero que sim.

- Ele está bravo com você?

- Não, ele não está bravo comigo.

- Ah! É você quem está brava com ele, né?

- Não, também não. Nenhum de nós está bravo. Apenas não estamos juntos agora...

- Então por que você não arruma um outro pai pra mim?

- Porque você só nascerá se ele for o pai. Só ele me daria a força que eu preciso para carregá-la dentro de mim.

- Essa força é o tal do amor que os adultos vivem falando?

- É. É exatamente disso que eu estou falando. Do amor.

- Para ter um neném todo mundo tem que ter amor?

- Não. Infelizmente não, minha pequenina. Muitas pessoas não têm amor, mas têm coragem. Eu não tenho coragem de te trazer ao mundo sem te dar um bom pai. Mas existe uma pessoa que pode me ajudar com isso. E é ele que eu quero que seja o seu pai, entendeu?

- Entendi... A gente não pode ligar pra ele agora e pedir pra ele ser meu pai logo?

- Eu garanto que ele quer ser seu pai tanto quanto eu quero ser sua mãe. Mas ele também tem medo. Ele quer muito ter você por perto, mas nós precisamos resolver umas coisinhas antes.

- Xiii... Vai demorar para eu nascer, né?

- Pode ser que demore um pouquinho sim, me desculpe. Prometo que farei todo o possível para mudar isso. E logo, logo estaremos prontos para te receber.

- Você o ama?

- Muito.

- Ele te ama?

- Muito.

Ela sorriu. Um sorriso maroto, meigo. O olhar tão doce... Então observei sua imagem esvaecer dando lugar a pontinhos de luzes brancas e azuis. Quando não mais podia vê-la, ainda pude ouvi-la dizer:

- Então eu espero, mamãe... Eu espero.


Acordei.


E porque ainda podia senti-la por perto, peguei papel e caneta e me pus a escrever:


“Querida Susan,
minha linda pequenina,
que bom sonhar com você!
Esse bilhetinho é a prova de que te vi,
de que acredito na sua existência
e do quanto te quero.
Torça por mim e por seu pai e não tenha pressa,
garanto que não esquecerei minha promessa”.

Ass: Mamãe.



Nicole Rodrigues

3 comentários:

nattsoll disse...

A Zuzanny Não esquecerá, nem a tia Jojo..., estamos torcendo por vcs sempre.. bjos.. Jo

Nathy disse...

Que lindo!

Sabe que muitas vezes eu tb via uma criança ao lado da minha cama quando ia dormir? Linda..uma menininho....

Mas ela nunca mais apareceu....

Acho que vou fazer como vc, deixar um bilhetinho a ele....

Linda, linda, vc!!!!

TWO OF US disse...

Nossa, estou impressionada! Sabe que já várias cartas para el@ também? E, no entanto, posso jamais vê-la.
Este texto remete-me aos meus sonhos e receios. E não falo apenas de filho, mas de tantos outras "barrigas". Muitas eu consegui parir com muita intrepidez e ousadia, outras foram mias suaves. Mas há tantas nascer...E sou um poço de fertilidade. Penso que isso me move.
Lindo texto, Nicole!