segunda-feira, 30 de julho de 2007

Colo de neném

 
Você só tem tempo
Pro amado marido
E pro amante refém.

Não tem tempo pra sua cria
Que implora noite e dia
Por um colo de neném.

Nicole Rodrigues

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Rasteira


Cavalo que não finca
a pata no chão
da égua leva rasteira.

Nicole Rodrigues

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Incovenient truth

I
No beautiful lines to write
No beautiful places to visit
No beautiful things to picture
No beautiful ex-girlfriend to chase

II
You only have time to love me
When you have nothing better to do.


Nicole Rodrigues

domingo, 8 de julho de 2007

Bukowski

A pele marcada,
o olho esbugalhado,
a testa franzida.

A voz rouca,
o passo atrasado,
o pescoço entroncado.

A camisa amassada,
o colarinho encardido,
o lenço colorido.

Tem alguma coisa nele
que me faz querer ter nascido antes,
num tempo impossível de ser vivido.


Nicole Rodrigues

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Cativeiro



O espelho é um ladrão de imagens.
Rouba a sua, rouba a minha
e a de quem mais se atrever a encará-lo.

Os desafiantes que se postam à sua frente
têm suas imagens capturadas
e o cativeiro é o centro de uma moldura dourada.

Depois de muito pensar,
descobri que só há um jeito
de punir um ladrão como o espelho:
quebre-o por inteiro.

Certifique-se de que o quebrou em mil pedaços.
Porque pior do que ser vítima de um espelho completo,
é ser vítima de um estilhaço.



Nicole Rodrigues

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Síndrome de avestruz


Aaai, como eu odeeeeeio comerciais de Shampoo!!! Principalmente aqueles com mulheres “perfeitas” desfilando pelas ruas, com vestidos floridos (que sobem e descem com o movimento do vento), enquanto todos os homens babam por elas (batem os carros, atropelam os velhinhos e derrubam os postes), observando o movimento (em slow motion) dos cabelos delas (que caem sobre os ombros ...) - que desperdício de dinheiro, viu? Criação, produção, veiculação... Tanto esforço pra lembrar o povo de lavar a cabeça.

Quando finalmente consegui sair do meu estado de mumificação, causado pela insatisfação capilar, me dei conta de que eu estava em pé, na entrada do salão de beleza, ainda segurando a maçaneta da porta, que eu mantive escancarada, sabe-se lá por quanto tempo, apesar do aviso do cartaz, que era quase tão grande quando os pôsteres, e que continha em letras garrafais a seguinte mensagem: “Ambiente refrigerado. Ao passar, por favor, manter a porta fechada”.

Tudo em que eu conseguia pensar era em como eu queria virar um avestruz, cavar um buraco e enfiar a cara, e é claro, a cabeça inteirinha, levando o meu rebelde bulbo capilar junto, lá pro fundo da terra, assim eu evitaria a vergonha e as comparações. Depois eu deduzi que a escavação levaria muito tempo, por isso desejei virar um galo corredor, tipo o papa-léguas, para sair correndo, rapidinho, e só parar bem longe dali: “Bip - bip! Bip - bip!”.

Diante da constatação de que nenhuma pena havia crescido em mim, e de que a possibilidade de eu virar uma ave era igual a ZERO, achei melhor encarar a situação. Foi quando só piorei as coisas, ao dizer: “Gente, quantos pôsteres!!! Vocês colocaram essa semana?”

As poucas pessoas que, até aquele momento, ainda tentavam manter a educação, evitando me encarar, desistiram, e logo me vi encurralada pelos olhares incrédulos e risonhos de todos os presentes - inclusive das manicures, que pararam de tirar bifes dos dedos das clientes porque fizeram questão de checar quem era a louca que perguntava se os pôsteres amarelados e desbotados na parede haviam sido colados recentemente.

Fui salva pelo gongo, ou melhor, pela gonga. A Dona Francinete, que é dona duas vezes porque é mais velha do que eu e porque é a dona do salão, ao perceber o meu estado avançado de embaraço, proferiu em alto e bom som: “Ahhhhh, menina, como eu adoro o seu bom humor!!! Há quanto tempo que você não vem aqui. O que aconteceu??? Como vai a sua mãe? E o seu irmão? E o trabalho? (...) ”

A mulher desatou a falar de tal maneira que mais parecia uma metralhadora. Mas não posso reclamar não. Porque foi ela quem me salvou. Eu tinha tantas perguntas para responder antes de atravessar a sala e sentir todos os olhos novamente voltados para mim, que quando eu finalmente terminasse o interrogatório, todos os curiosos já teriam ido embora.

Infelizmente o interrogatório foi interrompido por uma chamada telefônica que ocupou a Dona Francinete por longos minutos. Eu bem que tentei ficar ali mesmo, pelo balcão, de costas pro resto do salão, olhando fixamente para um peixinho azul dentro de um aquário diminuto, mas depois achei melhor me dirigir, de uma vez por todas, a alguma funcionária do salão só pra informar o que raios eu estava fazendo ali, afinal de contas aquilo era um salão de beleza.

- Moça, tem alguma manicure livre?
- Não. Mas tem uma quase acabando, a Senhora se importa de esperar?
- Não, não. Claro que não. Eu espero sentada ali (apontando pra um cadeira no canto do salão).

Segundos depois eu já estava sentadinha em uma confortável cadeira de madeira, com estofado branco, no canto do salão. Pra não ter que ficar trocando olhares com ninguém, achei melhor ler alguma coisa. Catei a revista que estava na cadeira ao lado. Relaxei um pouco mais acomodando as costas na almofada.

Mal pus os olhos na página e já avistei uma loira, que mais parecia a Barbie. Ela vestia um biquíni azul e se esparramava sobre uma manta branca coberta com frutas, geléia, fatias de pão, biscoitos... A moça parecia se esforçar pra segurar a taça de vinho, manter as pernas levemente dobradas, a barriga pra dentro, e o olhar distante - como toda boa apreciadora de piqueniques, que veste roupa de praia, bebe vinho, e que é “flagrada” em frente a um desses castelos em que a turma da Barbie costuma passar as férias.

Decidi dar uma olhadinha na capa e pra minha surpresa lá estava ela! Uma chamada gigantesca, na cor vermelha, informando que a tal cachinhos dourados havia sido eleita: “A mulher com a barriga mais bonita do país ”.

Baixei a vista, tentando encontrar uma razão para justificar o fato de que aquela informação tenha se tornado reportagem de capa e logo percebi um cesto cheinho de revistas com outras pérolas do gênero logo ali, no canto do salão.

Revistas como aquelas nos fazem sentir como se precisássemos andar 24 horas por dia como as garotas propagandas dos shampoos: lindas, magras e com cabelos esvoaçantes. O que só seria possível, se todas as mulheres andassem com um ventilador, dois refletores e um magnífico e dedicado maquiador pra cima e pra baixo. 

A verdade é que não fiz questão nenhuma de controlar o irresistível impulso de imaginar aquele cesto, amarrotado de revistas, virando uma bela de uma fogueira.

Nicole Rodrigues