segunda-feira, 7 de abril de 2008

Encontro marcado com a pátria amada



Foi só ler Fernando Sabino para eu cair em mim. “Preciso ler jornal. Merda. Merda. Merda”. Odeio ler jornal. E olha que tive a minha chance: dividi o mesmo teto, por mais de uma década, com um padrasto que lê cinco jornais por dia, assiste a outros dois, e ainda folheia três revistas semanais. Mas nem isso adiantou. Odeio ler jornal.

Não tenho nada contra os (bons) jornais da TV, só tenho contra a TV, tanto que nem tenho uma, e - com exceção das tardes de tédio, nas quais apesar de com sono estou entediada demais para dormir e mais ainda para ler - não sinto falta nenhuma. Quanto às revistas: até que gosto. Quando eu estava na faculdade, lia todas as que estavam ao meu alcance, nas prateleiras da biblioteca. Mas ultimamente ando lisa e pão-dura demais para gastar com “Veja os fatos dessa Época, Istó é, as notícias”.

A minha encrenca mesmo é com o jornal impresso: aquele tamanho de folhas, que cai para trás quanto tento apreciar um anúncio de publicidade de página inteira; aquele papel que deixa marca nos dedos; aquele cheiro - quase imperceptível, mas que está lá e que me faz pensar em peixe de feira. Em tainhas embrulhadas para serem fritas no almoço; em fundos de caixas que são forradas com os classificados do domingo para servirem de berço para filhotes de cachorro; em cobertas de mendigos que dormem em baixo do viaduto do setor de autarquias sul; em porcelanas chinesas que nunca são usadas e que são embrulhadas com folhas duplas para não quebrarem na mudança; em chão de casa em reforma, coberto com a sessão “Ilustrada” enquanto as paredes são pintadas.

Lendo “O encontro marcado”, na noite passada, lembrei que odeio textos pobres. E quando digo pobre, não digo sem palavras bonitas ou pomposas, mas sim textos sem sentido, sem referência, sem mensagem que valha a pena ser lida. Talvez por isso odeie alguns dos meus. Uns muito, outros nem tanto. Para uns reservo minha ira, e para outros só uma “odiazinha”. Daí crio vergonha na cara e alimento o texto: começo, meio, fim, base, suporte, estatística, precedente, conclusão, métrica, rima, padrão, ou simplesmente o condeno ao purgatório dos textos: a lixeira do meu laptop. Às vezes é prático, noutras é frustrante, mas como a teimosia é uma dádiva, cultivo as minhas olheiras em doses cavalares noturnas de preocupação, matutando sobre como dar “sustança” às minhas crias.

Mas como eu ia dizendo, ontem Sabino me cutucou com vara curta: em menos de dez páginas (sequenciais!!!), ele citou toda a famosa literatura espanhola e francesa; com a benção de Dostoievski passeou pela Rússia, e ainda deu uma esnobada na Alemanhã, citando Nietzsche sem muito entusiasmo. Tudo isso antes mesmo de chegar a um terço das deliciosas 284 páginas do livro! Quando achei que a lição de moral havia acabado, o maldito me vem com aulas divertidíssimas (em forma de diálogos) sobre história, geopolítica, economia e religião. Filho da mãe!

O problema todo é que ando ocupada demais com a literatura brasileira - daí a leitura do Sr. Fernando - , por isso, não posso me desviar lendo Maupassant nem Ortega agora. Estou sofrendo de uma síndrome compulsiva obsessiva nacionalista. Cecília, Clarice, Hilda, Graciliano, Marçal, Mário (Quintana e de Andrade) - pulei o Paulo (Coelho) e o Machado -- por razões opostas. Não estou pronta para entender nenhum dos dois, então não forço meu processo evolutivo.

Daí, pensei no jornal como um atalho para todo esse conhecimento. Como uma solução homeopática, uma dose light e diária de informação e boa vontade para, quem sabe, um dia, ver o mundo como Sabino viu. Nem que seja pelo buraco da fechadura do manicômio em que me prendarão se eu não esquecer a turminha brazuca que me faz companhia à noite e começar a dormir pelo menos 5 horas por dia. Já que lá no manicômio, aposto, só me restaria tomar pílulas coloridas nos copinhos de café e ler jornal. E eu não tomo café, e eu odeio ler jornal.

Nicole Rodrigues

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