sábado, 5 de abril de 2008

João sem braço

Os jogos têm árbitros, a vida não. Na partida diária do viver todo mundo é João sem braço. Não tem ninguém para levantar a bandeira. Ocupada como só ela sabe ser, quem quiser falar com a justiça que ligue -- e espere na linha “enquanto a ligação é transferida para um dos atendentes”; “Tu-tu-tu-tu… por favor tente novamente em alguns minutos”, ou dias, ou meses…

Mas em seu lugar vago tem sempre um monte de gente para apontar, insultar, incitar. -- Ahhh a audiência, a platéia, os espectadores! Glorificados sejam os olhos curiosos dos culpados indefesos que na falta do que fazer acabam imitando os discípulos de torcida bagunceiros do Deus futebol. Foguete prum lado e porrete pro outro. A arquibancada despencou! A grade de proteção caiu! As ovelhas adversárias são sacrificadas por terem a marca do timão nas patas. O banquete está pronto!!! Venham todos, não percam! Mundo cão, pardieiro, chiqueiro!

As faltas nas ruas não são levadas à sério como nos campos. No morro, no parque, na praça, na missa vale tudo. Mas aqui é o Maracanã, companheiro. Terra sagrada do Rei Pelé, veja lá como fala, veja lá como joga, senão o povo te mata com a benção dos deuses da Copa do Mundo!

O resultado das partidas vale mais que a vida. Deus, se existir, deve ser mesmo brasileiro. Pipoca e guaraná, assistindo o futebol do domingão, enquanto o povo se mata aqui embaixo…



Nicole Rodrigues

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