sexta-feira, 27 de junho de 2008

The prettiest thing


A coisa mais linda que eu já vi passar
foi um alfinete equilibrando um balão de ar...
Nicole Rodrigues

terça-feira, 24 de junho de 2008

Blackout


Quantos países visitarei sozinha ou contigo ao meu lado?

Por quanto tempo mais contaremos os centavos?


Filhos, cachorros, papagaios ou gatos?

Quantos livros escreverei e quantos serão publicados?

Quanto tempo ainda me resta antes que as idéias se acabem?


Quanto tempo ainda me resta antes que as luzes se apaguem?


Nicole Rodrigues

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Díspares



Anda logo
Diz para eles
Que pares podem ser ímpares
Mas não podem ser díspares

Diz para eles,
Dispara eles,
Faça alguma coisa!

Se eles não te derem ouvidos
Separe os pares
Que na ânsia de serem ímpares
Esquecem de serem pares
E só conseguem ser díspares.

É isso mesmo!
Separe ou dispare os pares díspares
Diz: “Pare”
Dispare

Mas tem que ser logo!
Antes que o pior aconteça
Antes que a prole apareça.

Nicole Rodrigues

domingo, 22 de junho de 2008

Cem anos


Não me faça beber minhas lágrimas.
Eu ouço meus soluços
e sei que você ouve também:
um coração engasgado de amor.
Que diferença faz
um ano ou cem?

Nicole Rodrigues

sábado, 21 de junho de 2008

Zigue-zague-zoo


Porcos sujismundo
Coelhos velocistas
E golfinhos salva-vidas

No chiqueiro
Na toca
Na piscina

Minhoquinhas coloridas
Lulas gigantes
E peixinhos beijoqueiros

Na praia
No barco
Na baía

Ratinhos dentuços
Baratas cascudas
E besouros barulhentos

No lixeiro
No esgoto
No bueiro

Passarinhos cantores
Borboletas cor de uva
E formigas tanajuras

No jardim
No quintal
No canteiro

O mundo animal é um zigue-zague
Quando começa e onde termina?
Ninguém sabe.
Nicole Rodrigues

Veneno sorbet


O sangue jorra da taça e das veias
Invadindo os canais
Por onde os sentidos passam
E as palavras brotam em erupção

O sorbet amacia a língua
E acarinha a alma
Que carente de ternura
Se lambuza na lizura do manjar

O tempero espeta a ostra
repleta de desejos
e as ondas de impulsos
se acumulam no pomar

O enxaço é prova da escassez
A úlcera do excesso
e enjôo me faz crer
Que é preciso jejoar.
Nicole Rodrigues

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Pela metade


Acontece uma vez por semana:
um ficando irritada,
um na cama amuada,
um embrulho no estômago por nada.

Uma vez por semana eu te mato
em pensamentos saudosos
que remetem a um tempo que não existiu;

Uma vez por semana eu te mato
num ataque de nervos,
num salto covarde,
numa fobia pela metade.


Nicole Rodrigues

domingo, 8 de junho de 2008

Pupila em negação


A pupila em negação
não tira os olhos do anel,
do vestido branco perolado,
do buquê de rosas vermelhas, nem do véu.

Nicole Rodrigues

Sopro de loucura


A última vez que eu disse que te amava
foi no fim no mundo.
Durou uma hora, um dia inteiro ou um segundo?

Ontem à noite te pedi em casamento.
Foi num sopro de loucura,
de certeza ou de lamento?

Se ainda houver tempo:
te comprarei velas coloridas e incenso.

Mas se o mundo acabou mesmo:
ontem à noite eu te pedi em casamento.


Nicole Rodrigues

domingo, 1 de junho de 2008

O que Virgínia me ensinou


Que a mente de um escritor deve ser desimpedida o suficiente para fazê-lo escrever de forma natural, criativa e incandescente sobre a realidade de um ser humano, seja ele homem ou mulher;

que o dom da escrita deve contar com a pureza (da transmissão da realidade) como elemento primordial de sua composição;

que tal pureza na literatura é tão escassa quanto a pureza dos bons princípios, da ética, e da gentileza em nosso dia-a-dia;

que as mulheres de seu tempo estavam frustradas e enfurecidas demais para transmitirem pureza na (até então) escassa experiência feminina na arte de escrever; e que os homens, por sua vez, estavam (e continuam) obcecados pela palavra “Eu”. Por isso, afogaram seus escritos num fluxo de auto-consciência carregado de indecência, de machismo, de virilidade... de testosterona;

que o quadro social de sua época fechou as portas para a genialidade ao sugerir de forma nada sutil que os escritores adotassem uma postura na guerra dos sexos, o que levou homens e mulheres talentosos a desperdiçarem tempo discutindo ou rabiscando sobre a superioridade e inferioridade dos gêneros;

que é preciso lutar pela conquista e pelo reconhecimento de obras geniais;

que a genialidade existe à serviço da realidade, e que, por isso, deve apresentá-la da forma mais pura possível;

que o escritor deve expressar o gênio que existe dentro dele e não expressar a si mesmo;

que a alma deve iluminar a genialidade de um escritor, mas um escritor não deve permitir que sua alma entre no caminho a ponto de comprometer a realidade das coisas, das pessoas e do mundo;

que para a literatura imortal o que o escritor tem a dizer é importante, mas o escritor em si e por si só, não o é.

Nicole Rodrigues