domingo, 1 de junho de 2008

O que Virgínia me ensinou


Que a mente de um escritor deve ser desimpedida o suficiente para fazê-lo escrever de forma natural, criativa e incandescente sobre a realidade de um ser humano, seja ele homem ou mulher;

que o dom da escrita deve contar com a pureza (da transmissão da realidade) como elemento primordial de sua composição;

que tal pureza na literatura é tão escassa quanto a pureza dos bons princípios, da ética, e da gentileza em nosso dia-a-dia;

que as mulheres de seu tempo estavam frustradas e enfurecidas demais para transmitirem pureza na (até então) escassa experiência feminina na arte de escrever; e que os homens, por sua vez, estavam (e continuam) obcecados pela palavra “Eu”. Por isso, afogaram seus escritos num fluxo de auto-consciência carregado de indecência, de machismo, de virilidade... de testosterona;

que o quadro social de sua época fechou as portas para a genialidade ao sugerir de forma nada sutil que os escritores adotassem uma postura na guerra dos sexos, o que levou homens e mulheres talentosos a desperdiçarem tempo discutindo ou rabiscando sobre a superioridade e inferioridade dos gêneros;

que é preciso lutar pela conquista e pelo reconhecimento de obras geniais;

que a genialidade existe à serviço da realidade, e que, por isso, deve apresentá-la da forma mais pura possível;

que o escritor deve expressar o gênio que existe dentro dele e não expressar a si mesmo;

que a alma deve iluminar a genialidade de um escritor, mas um escritor não deve permitir que sua alma entre no caminho a ponto de comprometer a realidade das coisas, das pessoas e do mundo;

que para a literatura imortal o que o escritor tem a dizer é importante, mas o escritor em si e por si só, não o é.

Nicole Rodrigues

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