terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O gosto amargo do sonho doce



Precisas saber o quanto machuca observar o ritmo crescente e acentuado de tua indiferença.

Há meses, senão anos, que me sinto desencorajada a ponto de considerar abrir mão de minha lucidez.

Penso que se trata de uma tentativa suplicante de me entregar à demência, para arriscar oferecer a dormência a um corpo que insiste em sentir tua ausência;

Ir até o fundo do poço para saber como é. Quem sabe lá, sozinha, no oco, eu me sinta encurralada o suficiente para reagir e sair do buraco escuro e desconfortável em que me deixei cair.

Não, nunca senti o baque de tua mão ou o peso de teu braço a me machucar; nunca fui forçada a contigo me deitar, e tão pouco sou forçada a permanecer neste lugar.

Mas os cômodos vazios de tua presença me cercam, me perturbam e me fazem sentir ingrata. Ingrata por reclamar da calmaria com que tanto sonhei e que agora me segue dia após dia neste casarão que decorei para contigo viver de amor.

E eu teria vivido, não fosse teu egoísmo, que catapulta, a último plano, as necessidades e a existência de tua própria mulher...

Marcas vermelhas aparentes por todo o corpo me fariam te abandonar antes mesmo do dia acabar, mas tua violência é disfarçada, meticulosa e rasteira.

Metade homem, metade monstro, é o que és. Uma besta-fera de aparência frágil e frieza singular, que fere por dentro, arranhando as paredes do coração de quem teima te amar.

Por que me privas do que um dia me deste; do que dantes me prometeste? O que fizeste com o homem gentil, polido e dedicado de outrora; aquele primoroso e em demasia interessado?

Pior do que não mais tê-lo, é tê-lo apenas quando lhe convém; é saber que tens capacidade de sê-lo, e quando não o é, é porque te negas. E após negar-se vezes seguidas, não só me feriu, como me ensinou a odiá-lo. Agora o faço com prazer.

E apesar de me tirares o direito de ter alguém que me ame a meu lado em dias como o de hoje, é bem provável que não tenhas a sorte de repetir tal façanha em dias como o de amanhã.


Nicole Rodrigues

sábado, 24 de janeiro de 2009

Whisky



Um coração embriagado de whisky pensa que todo sapo é príncipe.


Nicole Rodrigues

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Everlasting


No fim das contas o que é mesmo que perdura:
o espelho, o reflexo ou a moldura?


Nicole Rodrigues

Cansaço


Cansaço é querer mais do que se tem.
 
Nicole Rodrigues

domingo, 11 de janeiro de 2009

Sonâmbula


Cansei de fechar os olhos
não quero mais dormir.

Basta um cochilo,
um segundo,
um vacilo,

pro travesseiro abusar e abrir
a fresta de insanidade
que existe dentro de mim.


Nicole Rodrigues

Palha dourada

PALHA DOURADA


A sonolência não leva embora,
apenas isola,
os medos e os segredos
que se acumulam como estorvos ...

... e a coluna dobra
mesmo quando sonhamos
que balançamos
numa rede tricotada
com fios de palha dourada
.



Nicole Rodrigues

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Jasmin



As flores marinhas desabrocham em gotas de jasmim.



Nicole Rodrigues

Tortuga


O rabo longo
saindo do ovo
anuncia um menino.

Nicole Rodrigues

Baile


O plâncton baila ao som da lacraia.

Nicole Rodrigues

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Vilarejo sueco


De dia eu durmo
e à noite eu escrevo
nas terras frias
de um vilarejo sueco.

Ursos polares
e alces falantes...
Posso jurar:
os sinto tão perto.


Nicole Rodrigues

Branca de neve



O inverno chegou!
 

O verde caiu
e o branco subiu
na árvore de natal
que dura o ano inteiro.


Nicole Rodrigues

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Snowball


Roubei o pinguim da geladeira
pra ter alguém pra brincar na neve.


Nicole Rodrigues
Nicole Rodrigues