domingo, 31 de maio de 2009

Manifesto divino


De tanto ouvir lamentação,
Deus impôs ao seu anjo de confiança
uma provação: “Desça até a terra
observe e anote tudo. Esta é a tua missão.”

Após sete dias vivendo como humano,
em seu relatório o anjo escreveu:

assassinato,

estelionato,
suicídio,
extinção;

sequestro,
estupro,
assalto,
prisão;


corrupção,
descaso,
chacina,
rebelião;

Senhor,
o mundo está pegando fogo
e ninguém parece se importar...


Os bombeiros estão feridos
sob os escombros das torres gêmeas caídas;

os policiais são executados,
em plena luz do dia, nas principais avenidas;

os seguranças, coitados,
são atacados em suas próprias guaritas;


e os médicos se esforçam,
na tentativa de curar tantas feridas.

O que mais ouço pelas ruas
é uma questão em forma de prece:

“Ó misericordioso Pai,
responda-me, por favor:
O que será de minha raça?
Olhai por nós, Senhor.”

A resposta de Deus:


“Caro bicho-homem, bicho burro,
inconsequente e atroz,
por que te pões a olhar pro céu e rezar
se o culpado de tudo isso sois vós?

Não me peça para salvá-lo.
O que tens sofrido é fruto de tua própria luxúria.
Condenado estás a viver sozinho, pobre criatura.


Nicole Rodrigues

Isso de amor, isso de amar



Isso de amor, isso de amar...
Amor pra lá, amor pra cá.
Tem razão de ser?
Ou é só blá-blá-blá?

Isso de esperar que alguém apareça
e nos entorpeça; que nos faça a cabeça,
encha a vida de emoção
e nos enlouqueça!

Isso de buscar em outro alguém
a razão para sentir-se bem.
De viver a sonhar com o amor perfeito:
“a pessoa especial” - cheia de virtudes e nenhum defeito.

Isso de viver esperando, vigiando,
em estado de alerta, sempre na expectativa.
Isso de amor, isso de amar...
na verdade, nem é vida.


Nicole Rodrigues

sábado, 30 de maio de 2009

Que amor é esse


Que amor é esse
que tira o sono,
o fôlego,
e a roupa?

De noite,
de dia,
de quatro
na cama

em que se dorme,
geme
e goza
com que se ama.

Que amor é esse?
Que chega e não vai embora.
Nicole Rodrigues

Maldição


Em dias como hoje
amaldiçôo meus dedos
por pertencerem a um teclado
e não a um piano.

Nicole Rodrigues

terça-feira, 26 de maio de 2009

Rabos na cabeça



Eu não quis casar com véu.

Véus são como rabos,
só que na cabeça.

Rabos que te fazem prometer amar alguém
não importa o que aconteça.



Nicole Rodrigues

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Corpo penado



Perdi o meu corpo. Traga-o de volta, por favor.
Perdi o cheiro, o tato, as cores, o sabor...
Não sinto frio, nem calor;
tristeza, ira, medo, nem dor.


Eu quero tudo de volta.
Quero voltar a sentir.

Traga meu corpo de volta
e ele aprenderá a viver sem ti.


Nicole Rodrigues

Corpo celeste



Os pontinhos luminosos,
espalhados por todo o céu,
profetizam a sua visita.

E quando fecho os olhos:
ali você está:
vulto,
fantasma,
corpo celeste a me rondar...

Não demora muito para
minha pele arrepiar
e meu corpo transpirar,
pronto para te receber.

Mas os raios dourados
invadem o quarto
e quando abro os olhos:
ali você não está.


Nicole Rodrigues

Roxas botas


Se o Pinóquio parasse de mentir
eu me perderia no fio da miada
do gato de botas
roxas como a raiva
que sinto de você agora.



Nicole Rodrigues

domingo, 17 de maio de 2009

Aquele tal

 
De todas as certezas que eu tinha a seu respeito
apenas uma restou: a de que você é aquele tal.

Aquele que, dizem, faz a cabeça da gente girar,
o coração disparar e o corpo tremer...

Aquele que pensamos ter visto na multidão
e que procuramos por anos a fio, em vão.

Aquele que não queremos superar nem esquecer.
É... eu acho mesmo que aquele tal é você.

O tal do “único”... "único e verdadeiro amor".
Seja lá o que isso for...



Nicole Rodrigues

Amor interrompido


Um amor interrompido é como
um carro na calçada,
um cavalo fugindo assustado,
um relógio de ponteiro enlouquecido;

um amor interrompido é como
um coração parado,
um padre pervertido,
um monge envaidecido;

um amor interrompido
condena duas almas
a viverem separadas, pensando uma na outra
e isso não faz o menor sentido.

Nicole Rodrigues

Prece



Às vezes penso:
“que se dane o caminho!”

Noutras peço:
"que o caminho me encontre
- já que insisto em perdê-lo de vista;

que a curva se faça enxergar
para que eu tenha tempo de pensar
e que a reta me permita continuar.

Apenas eu e o caminho
sem medo de voltar,
sem medo de seguir.

Só assim me livrarei dos tropeços
e vislumbrarei o fim
sem arrependimentos.”

Nicole Rodrigues

terça-feira, 12 de maio de 2009

Tila



Lembro perfeitamente dos olhos dele que me desafiavam ferozmente. Foi a primeira vez que senti ódio em toda a minha vida...

Eu devia ter uns seis ou sete anos, quando, contra a minha vontade, tive que ir ao aniversário de 70 anos da Gorete, uma velha amiga da minha família. Todo mundo que eu conhecia estaria lá, o que eliminava qualquer possibilidade de eu poder ficar em casa, brincando no conforto do meu quarto.

Para tornar as coisas mais fáceis, a minha mãe pediu que eu levasse UMA boneca (era pra ver se eu me distraia e não enchia o saco de ninguém durante a festa). Como sempre, escolhi a Tila - que de longe era a minha favorita. Peguei-a nos braços e fui. Com a cara amarrada o caminho inteiro, mas fui.

E foi só eu colocar os pés na sala de estar da casa da Gorete pros amigos da minha mãe começarem a usar o repertório de elogios para baixinhos: “Aaaai, como ela é liiiiinda!” ; “Nossa! Mas que princesinha você tem, Suzana.” Blá-blá-blá... Eles diziam a mesma coisa para todas as crianças da festa, na maior cara de pau, mas ainda assim, éramos obrigadas a sorrir educadamente diante da falta de originalidade deles.

Eu queria mais era pegar a Tila e ir brincar em algum lugar sossegado onde ninguém apertaria as minhas bochechas a cada cinco minutos. Mas enquanto eu não conseguia me livrar do assédio dos adultos, eu tratava de consolar a mim mesma lembrando que o pior já havia passado: a fase do ter que “mostrar pros titias e titios, com os dedinhos, quantos anos o neném tem”.

Brincar com aquela boneca era a única coisa que realmente me distraia e confortava, porque me permitia ser grande. E, meu Deus, como eu queria ser grande! Queria tanto que todos os dias eu inventava uma continuação para a historinha do dia anterior. Juntas, Tila e eu vivemos uma vida inteira. Crescemos, estudamos, namoramos, trabalhamos e gastamos todo o nosso dinheiro em viagens para a Disneylândia sem sequer precisarmos sair do meu quarto... Talvez por isso eu a tenha amado tão intensamente até o dia em que o Pipoca, o cachorro da Gorete, pulou no sofá, pegou a Tila pelo pescoço e saiu correndo para o quintal.

Juro que de todos os momentos que vivi ate hoje, aquele foi o único em que realmente gostei de ser criança. Porque pude chorar, berrar e espernear muito sem que ninguém me achasse louca. Pelo contrário, todo mundo que estava na festa e que se deparou com os pedaços da Tila espalhados pela casa, ficou comovido. Enquanto os estranhos me faziam carinho e me ofereciam refrigerante e brigadeiro, minha mãe e tia me pegavam no colo, prometiam bonecas que engatinhavam, andavam, choravam e comiam papinha. Mas eu estava irredutível. Queria a Tila e ponto final.

Então parei de chorar, desci do colo da minha mãe e senti uma coragem descomunal me guiar até o quintal. Chegando lá: dei de cara com o maldito cachorro, que carregava o braço da Tila na boca, enquanto usava as duas patas da frente para cavar um buraco que já estava bem fundo. À aquela altura, eu já havia catado os pedaçinhos dela, que estavam pelo caminho, como se fossem meus. “Ela deve estar tão triste por ter morrido desse jeito...”. Pude sentir as lágrimas voltando quando imaginei o quanto a minha Tila precisaria dos dois braços quando chegasse no céu das bonecas.

Foi quando lembrei de uma vez ter visto o meu primo Rubens batendo no cachorro da minha avó com um cabo de vassoura, e não consegui controlar a vontade de fazer o mesmo.

Vasculhei a casa até encontrar uma vassoura na dispensa. Decidida, voltei para o quintal e em silêncio caminhei em direção ao vira-lata. A cada passo que eu dava, maior e mais alto era o grunhido dele. Até pensei em voltar atrás, mas bastou observar aqueles dentes afiados fincados no braço da Tila para eu levantar a vassoura até a altura dos meus ombros e me preparar para acertá-lo com toda a minha força ... – até ele fechar os olhos e se encolher no chão feito um tatu-bola.

Ele deve ter percebido que perdi a coragem porque tratou de soltar o braço da boneca e correr pro terraço bem rapidinho. E quando eu finalmente consegui recuperar o que sobrou da minha Tila, lembrei que, ao chegar na festa, o Pipoca estava brincando com uma bolinha azul e preta, de borracha, que ele não deixava NINGUÉM pegar, nem mesmo a Gorete.

Caminhei até a casinha dele, que ficava bem no fundo do quintal. Peguei a bolinha, juntei com todos os pedaços da boneca que eu havia encontrado e sentei em frente ao buraco que ele havia começado a cavar. “Se alguém irá enterrá-la esse alguém sou EU”.

Cheguei em casa, tomei banho, jantei e fui pro quarto. Nem esperei minha mãe me por na cama, tamanha era a minha tristeza. E quanto mais falta eu sentia dela, mais eu imaginava o cachorro procurando a bola, andando de um lado pro outro em plena agonia, uivando, uivando e uivando sem parar... Permaneci deitada, de olhos fechados, apertando a bolinha com força, alimentando aquele pensamento masoquista por horas a fio... até finalmente cair no sono.

Nicole Rodrigues

Rabiola



Não.
Não, não.
Não venha abanando o rabinho
e com a linguinha de fora.

Porque nem de cachorro eu gosto.
Matei o meu de desgosto
logo depois que você foi embora.

Então agora
Não.
Não, não.
Não volte abanando a rabiola.


Nicole Rodrigues

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Cárcere privado


Já faz algum tempo que ela está agachada
no canto da cela
com o olho arregalado
e o sangue pingando na chinela...
Será que foi ela quem cortou os pulsos
ou cortaram pra ela?


Nicole Rodrigues

A moça, o mar e a mordaça


Por que você só senta
e chora?

Por que não faz as malas
e vai embora?

Por que as correntes
nos punhos,
tornozelos
e dentes?

Por que a mordaça,
o mordomo
e o motorista?

O amante,
o barco
e a casa com vista

para o mar
em que você nunca nada,
em frente ao qual você senta

e chora.

Nicole Rodrigues

terça-feira, 5 de maio de 2009

Manuscrito


Com palavras confesso meus erros,
compartilho minhas dores,
confidencio meus amores;

com palavras curo os lamentos,
me alegro, me entristeço;
escrevo um fim e um recomeço;

 
com palavras me liberto e me prendo,
me estranho e me reconheço,
me dilacero e me curo de meus ferimentos
.

Nicole Rodrigues