terça-feira, 12 de maio de 2009

Tila



Lembro perfeitamente dos olhos dele que me desafiavam ferozmente. Foi a primeira vez que senti ódio em toda a minha vida...

Eu devia ter uns seis ou sete anos, quando, contra a minha vontade, tive que ir ao aniversário de 70 anos da Gorete, uma velha amiga da minha família. Todo mundo que eu conhecia estaria lá, o que eliminava qualquer possibilidade de eu poder ficar em casa, brincando no conforto do meu quarto.

Para tornar as coisas mais fáceis, a minha mãe pediu que eu levasse UMA boneca (era pra ver se eu me distraia e não enchia o saco de ninguém durante a festa). Como sempre, escolhi a Tila - que de longe era a minha favorita. Peguei-a nos braços e fui. Com a cara amarrada o caminho inteiro, mas fui.

E foi só eu colocar os pés na sala de estar da casa da Gorete pros amigos da minha mãe começarem a usar o repertório de elogios para baixinhos: “Aaaai, como ela é liiiiinda!” ; “Nossa! Mas que princesinha você tem, Suzana.” Blá-blá-blá... Eles diziam a mesma coisa para todas as crianças da festa, na maior cara de pau, mas ainda assim, éramos obrigadas a sorrir educadamente diante da falta de originalidade deles.

Eu queria mais era pegar a Tila e ir brincar em algum lugar sossegado onde ninguém apertaria as minhas bochechas a cada cinco minutos. Mas enquanto eu não conseguia me livrar do assédio dos adultos, eu tratava de consolar a mim mesma lembrando que o pior já havia passado: a fase do ter que “mostrar pros titias e titios, com os dedinhos, quantos anos o neném tem”.

Brincar com aquela boneca era a única coisa que realmente me distraia e confortava, porque me permitia ser grande. E, meu Deus, como eu queria ser grande! Queria tanto que todos os dias eu inventava uma continuação para a historinha do dia anterior. Juntas, Tila e eu vivemos uma vida inteira. Crescemos, estudamos, namoramos, trabalhamos e gastamos todo o nosso dinheiro em viagens para a Disneylândia sem sequer precisarmos sair do meu quarto... Talvez por isso eu a tenha amado tão intensamente até o dia em que o Pipoca, o cachorro da Gorete, pulou no sofá, pegou a Tila pelo pescoço e saiu correndo para o quintal.

Juro que de todos os momentos que vivi ate hoje, aquele foi o único em que realmente gostei de ser criança. Porque pude chorar, berrar e espernear muito sem que ninguém me achasse louca. Pelo contrário, todo mundo que estava na festa e que se deparou com os pedaços da Tila espalhados pela casa, ficou comovido. Enquanto os estranhos me faziam carinho e me ofereciam refrigerante e brigadeiro, minha mãe e tia me pegavam no colo, prometiam bonecas que engatinhavam, andavam, choravam e comiam papinha. Mas eu estava irredutível. Queria a Tila e ponto final.

Então parei de chorar, desci do colo da minha mãe e senti uma coragem descomunal me guiar até o quintal. Chegando lá: dei de cara com o maldito cachorro, que carregava o braço da Tila na boca, enquanto usava as duas patas da frente para cavar um buraco que já estava bem fundo. À aquela altura, eu já havia catado os pedaçinhos dela, que estavam pelo caminho, como se fossem meus. “Ela deve estar tão triste por ter morrido desse jeito...”. Pude sentir as lágrimas voltando quando imaginei o quanto a minha Tila precisaria dos dois braços quando chegasse no céu das bonecas.

Foi quando lembrei de uma vez ter visto o meu primo Rubens batendo no cachorro da minha avó com um cabo de vassoura, e não consegui controlar a vontade de fazer o mesmo.

Vasculhei a casa até encontrar uma vassoura na dispensa. Decidida, voltei para o quintal e em silêncio caminhei em direção ao vira-lata. A cada passo que eu dava, maior e mais alto era o grunhido dele. Até pensei em voltar atrás, mas bastou observar aqueles dentes afiados fincados no braço da Tila para eu levantar a vassoura até a altura dos meus ombros e me preparar para acertá-lo com toda a minha força ... – até ele fechar os olhos e se encolher no chão feito um tatu-bola.

Ele deve ter percebido que perdi a coragem porque tratou de soltar o braço da boneca e correr pro terraço bem rapidinho. E quando eu finalmente consegui recuperar o que sobrou da minha Tila, lembrei que, ao chegar na festa, o Pipoca estava brincando com uma bolinha azul e preta, de borracha, que ele não deixava NINGUÉM pegar, nem mesmo a Gorete.

Caminhei até a casinha dele, que ficava bem no fundo do quintal. Peguei a bolinha, juntei com todos os pedaços da boneca que eu havia encontrado e sentei em frente ao buraco que ele havia começado a cavar. “Se alguém irá enterrá-la esse alguém sou EU”.

Cheguei em casa, tomei banho, jantei e fui pro quarto. Nem esperei minha mãe me por na cama, tamanha era a minha tristeza. E quanto mais falta eu sentia dela, mais eu imaginava o cachorro procurando a bola, andando de um lado pro outro em plena agonia, uivando, uivando e uivando sem parar... Permaneci deitada, de olhos fechados, apertando a bolinha com força, alimentando aquele pensamento masoquista por horas a fio... até finalmente cair no sono.

Nicole Rodrigues

5 comentários:

Cadinho RoCo disse...

Em alguma circunstância a idade desaparece diante do que manifesta nosso sentimento de afeição.
Cadinho RoCo

Nathy disse...

Acho que conheço essa história....

Nicole Louise disse...

Deve conhecer sim baby, já que você acompanha o meu filho Heterocefalando desde o nascimento dele em março de 2007, e esse conto foi um dos primeiros que postei :)

Nicole Louise disse...

p.s: eu apenas revisei e acabei repaginando alguns parágrafos, por isso postei de novo.

Juliana Migliorati disse...

Eu batia no cachorro!
Coitado kkkkk...
Vou te contar um segredo eu era uma criança caridosa!
Eu ía ter dó dele que não fez por mal e não pegaria a bolinha do coitado, só ía espernear msm kkkkkk... Haaa e gritar bastante, eu tenho uma voz potente kkkkkk...
Eu era considerada uma velhinha de 100 anos quando criança, pois me comportava assim, hj em dia podem falar que já tenho 200 enfim, uma criança, que não gostava de brincar e ficava lendo, uma mocinha que não usava saias curtas nem ficava com os rapazes, ou ía p/ balada, uma "quase" mulher que não faz nada que seja vicioso e nunca cabulou uma aula, ou foi a bares e sempre esteve em casa antes das 21 horas desapegada de td material e de sexo tbm! Ou seja "véinha chata" kkkkk
Beijo criança malvada rsrsrsrs...