domingo, 28 de junho de 2009

Cor de tigre



Por que você
sempre fala baixo
quando estamos embaixo
do cobertor cor de tigre?

Eu escorrego os dedos
por entre os seus cabelos ruivos
- ovelhas que se encolhem como novelos...

Eu disse que voltaria
e você não acreditou,
então agora me diz:
você sentiu saudades?

Eu guardei a sua voz
numa caixinha de madeira
chamada violino...

Por que você
sempre fala manso?
- ao som da sua voz eu deito,
balanço e adormeço.


Nicole Rodrigues

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O traficante de pessoas



O traficante de pessoas tem entre 25 e 40 anos. Tem jeito, tem papo e tem pinta de gente boa. Alguns são bonitos, educados, bem vestidos e até falam várias línguas. É o tipo simpático que é dono ou trabalha em bares, casas de show, agências de modelo, agências de encontro e, pasmem, salões de beleza.

Ele vai aparecer do nada, vai puxar assunto, vai sorrir descontraidamente e vai oferecer um chocolate, um chiclete, uma bebida, uma carona, ou prometer melhores oportunidades de emprego e condições de vida.

O fato de você e ele estarem no mesmo lugar, naquele dia e hora, e de ele parecer muito disposto a lhe ajudar: não é coincidência, muito menos sorte. Mas você olha para aquele moço bem humorado e gentil e duvida que ele possa te machucar.

Depois de atrair a sua atenção e conquistar a sua confiança, ele vai te distrair, atrair, seduzir, levar na valsa e te afastar da sua vizinhança, entrada da escola, ponto de ônibus, rodoviária, aeroporto, clube, boate ou qualquer outro lugar público onde ele tenha te encontrado. 

E quando você estiver num beco vazio, ou no carro, na casa, ou no “escritório” dele, ele vai usar a força. Não importa se você é menino, menina, mocinho, ou mocinha. Ele vai te bater, e provavelmente, vai te estuprar. Não uma, nem duas, mas várias vezes, antes de fazer uma ligação e avisar que “já chegou a encomenda”.


Você sentirá fome, sede, sono, medo e dor. Até o dia em que ele te colocar dentro de uma mala, de um porta-malas, de uma caixa, de um tanque de gasolina de caminhão, de um container de lixo... E quando você, finalmente, puder respirar: vai ouvir vozes e palavras que nunca ouviu antes. Você não reconhecerá nenhum rosto, nem entenderá uma palavra que eles dizem e, por isso, vai apanhar. Você tentará explicar que não entende nada, e vai apanha mais uma vez, para calar a boca. Você vai chorar de desespero e, por isso, também vai apanhar, e eles vão te bater tão forte que você vai desmaiar.


Você acordará num lugar pequeno, estreito, sujo e escuro. Perceberá que tem uma algema em um braço e marcas de agulha no outro, e levará horas, no máximo dias, para descobrir que, a partir daquele momento, a sua vida se resumirá à escravidão sexual, ao trabalho escravo ou à remoção de todos os órgãos do seu corpo, e que você morrerá no porão de uma casa na Holanda, na Espanha, na Itália, na Suíça, na França, na Polônia, na Rússia, na China, na Tailândia, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, no Chile, no Suriname ou no Camboja... todos os dias do ano.

Nota:
Cerca de 2,5 milhões de pessoas "desaparecem" todos os anos vítimas do tráfico humano. Onde elas estão? E por que NÓS não fazemos NADA a respeito?


Nicole Rodrigues

sábado, 13 de junho de 2009

Zumbido



Ela simplesmente se recusava a ir embora.

Como um cortador de grama com asas, ia e voltava, desfilando em círculos, em volta da minha cabeça.

Tentei de tudo: primeiro ignorá-la, depois me esconder por detrás das páginas de um livro velho, enquanto atravessa a cozinha, de onde a enxotei com um pano de prato, até perder a paciência e esmagá-la contra a parede de azulejos encardidos, com uma revista de fofocas do mês passado.

Tudo tão decadente. Do zumbido ao fim.


Nicole Rodrigues

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Rainha de copas


Acendi uma fogueira
na copa da árvore
e brinquei de boca de forno.


Nicole Rodrigues





quarta-feira, 10 de junho de 2009

Nem neta de Nietzsche, nem filha de Bukowski




Enquanto todo mundo é atacado pelas incertezas: “Quem sou?”, “Para onde vou?”, “O que vou fazer”, “O que quero ser?”, eu sou atacada pelas certezas: sei bem quem sou, o que posso ser, o que quero ser, o que não quero ser, o que quero ter, quem quero ter, quem amo, quem odeio e porque amo e odeio.

Estou tão certa sobre mim que perceber que isso não é o suficiente para me realizar me corrói por dentro, como veneno de rato nas tripas do suicida burro, que escolhe se matar da maneira mais dolorida e lenta possível, queimando as vísceras, numa tentativa de descobrir se é de lá – das profundezas do organismo humano – que veio toda a dor que o fez decidir dar fim à própria vida.


Não, não quero me matar. E se eu aparecer morta por aí, procurem um poema sem rimas na minha mão esquerda - eu não me mataria sem escrever um último verso -, e se não encontrarem: tratem de procurar o meu assassino!!!

Como eu dizia, o meu problema é com a certeza. O meu conjunto quebradiço de certezas. Sei tão bem quem sou que chego ao cúmulo de intimidar a mim mesma. Simplesmente não sei o que fazer com tanta certeza. E foi isso o que, hoje, me paralisou, me inutilizou.

Perceber o quanto a súbita síndrome da inutilidade me atingiu, me surpreende. “Como pude ser tão frágil???” Frágil - odeio essa palavra - não me reconheço. Nunca me referi a mim mesma como frágil antes. E não pretendo continuar.

Não suporto, não aguento, não alimento a idéia de observar minhas forças e esforços vagando por becos sem saída. E já faz algum tempo que meu corpo têm emitido sinais de que não sei lidar com momentos de fraqueza: sinto dores nas costas, dormência nas pernas, dores de cabeça de alfinete, tonturas agudas e falta de apetite... Sem falar nos sonhos estranhos, com pessoas que não conheço ou com conhecidos que preferia não ter conhecido.

Não. Não quero ser vítima do mal das incertezas, apenas queria não ter tanta certeza de que ter certeza nem sempre é o bastante.

Não quero me convencer de que o mundo é um lugar de gente fraca e vil, e de que é possível viver apenas do proveito dos estágios de calamidade humana. Porque não há nada mais Nietzschiano do que pensar assim, e nem de Nietzsche eu gosto.

Ele, que no auge da solidão e inconformação com o rumo que a vida tinha tomado, passou a escrever os textos mais pessimistas e obscuros que já cruzaram o meu par de olhos castanhos até ser diagnosticado como portador de "paralisia progressiva", que, (dizem) foi de origem sifilítica. Nietzsche conviveu com a moléstia que progrediu lentamente até sugar-lhe o último sopro de vida.


Outro, que também escreveu movido pelas chorumelas, foi Bukowski: escreveu 50 livros tirando sarro da própria desgraça; recheando os escritos de ironia pra fazer de conta que não se importava com a merda que era a vida dele – ele não teria tido tantas úlceras se realmente não se importasse...

Os dois escrevem bem. Muito bem. Admirável e estupidamente bem. Não importa se sobre coisas boas ou ruins... Escreveram melhor do que muitos gurus de auto-ajuda que se proclamam felizes por aí, mas, ainda sim: só foram verdadeiramente reconhecidos depois de serem verdadeiramente infelizes e morrerem e enterrarem consigo todo o desamparo e destempero que usavam como inspiração.

Não. Eu não quero isso pra mim. Não quero viver uma via infeliz para poder escrever sobre ela e ser feliz postumamente. E compreendi que é isso que tem me torturado. Não quero uma obra que seria uma ode às moléstias e mazelas humanas. Não quero confortar o coração dos infelizes; não quero ser o alívio para a fraqueza dos outros, nem escrever o livro de cabeceira dos pessimistas do século XXI.

Posso até vir a escrever sobre um dia catastrófico, um amor destruidor, um amigo traidor ou uma doença terminal, mas me recuso a escrever apenas a custa da miséria de mim mesma.

Se eu tiver o azar de cair em um buraco negro, escreverei sobre a sensação de estar presa, acaçapada e encortinada por paredes sujas e negras; escreverei sobre a falta de ar, sobre o mal-estar, como faço agora mesmo, ao não encontrar saída para o dia de hoje, mas não escreverei que não me importo, nem afirmarei que sei lidar com o meu fracasso; não fingirei conforto ou controle ao me perceber condenada ao breu, assim como não culparei os demais fracos e fracassados do mundo pela fraqueza que toma conta de mim neste ou em qualquer outro momento.

Eu me recuso a ser engolida metaforicamente pela terra, antes de literalmente sê-lo. Assim como me recuso a só receber a recompensa pelo amor à escrita quando eu estiver a sete palmos do chão.

E me ocorre que entre todas as coisas geniais e patéticas que Bukowski escreveu, pelo menos uma eu entendo bem: “Essas palavras que escrevo são o que me mantêm livre da loucura total”. E se quer saber: de todas as minhas certezas, essa é a que mais incomoda.


Nicole Rodrigues

Grata surpresa

[Para Mida]


Pude contar com teu terno abraço
quando da maior de todas as minhas tristezas.
Por isso, posso afirmar que de minha árvore genealógica
és, sem sombra de dúvidas, a mais grata das surpresas!

Nicole Rodrigues