quarta-feira, 10 de junho de 2009

Nem neta de Nietzsche, nem filha de Bukowski




Enquanto todo mundo é atacado pelas incertezas: “Quem sou?”, “Para onde vou?”, “O que vou fazer”, “O que quero ser?”, eu sou atacada pelas certezas: sei bem quem sou, o que posso ser, o que quero ser, o que não quero ser, o que quero ter, quem quero ter, quem amo, quem odeio e porque amo e odeio.

Estou tão certa sobre mim que perceber que isso não é o suficiente para me realizar me corrói por dentro, como veneno de rato nas tripas do suicida burro, que escolhe se matar da maneira mais dolorida e lenta possível, queimando as vísceras, numa tentativa de descobrir se é de lá – das profundezas do organismo humano – que veio toda a dor que o fez decidir dar fim à própria vida.


Não, não quero me matar. E se eu aparecer morta por aí, procurem um poema sem rimas na minha mão esquerda - eu não me mataria sem escrever um último verso -, e se não encontrarem: tratem de procurar o meu assassino!!!

Como eu dizia, o meu problema é com a certeza. O meu conjunto quebradiço de certezas. Sei tão bem quem sou que chego ao cúmulo de intimidar a mim mesma. Simplesmente não sei o que fazer com tanta certeza. E foi isso o que, hoje, me paralisou, me inutilizou.

Perceber o quanto a súbita síndrome da inutilidade me atingiu, me surpreende. “Como pude ser tão frágil???” Frágil - odeio essa palavra - não me reconheço. Nunca me referi a mim mesma como frágil antes. E não pretendo continuar.

Não suporto, não aguento, não alimento a idéia de observar minhas forças e esforços vagando por becos sem saída. E já faz algum tempo que meu corpo têm emitido sinais de que não sei lidar com momentos de fraqueza: sinto dores nas costas, dormência nas pernas, dores de cabeça de alfinete, tonturas agudas e falta de apetite... Sem falar nos sonhos estranhos, com pessoas que não conheço ou com conhecidos que preferia não ter conhecido.

Não. Não quero ser vítima do mal das incertezas, apenas queria não ter tanta certeza de que ter certeza nem sempre é o bastante.

Não quero me convencer de que o mundo é um lugar de gente fraca e vil, e de que é possível viver apenas do proveito dos estágios de calamidade humana. Porque não há nada mais Nietzschiano do que pensar assim, e nem de Nietzsche eu gosto.

Ele, que no auge da solidão e inconformação com o rumo que a vida tinha tomado, passou a escrever os textos mais pessimistas e obscuros que já cruzaram o meu par de olhos castanhos até ser diagnosticado como portador de "paralisia progressiva", que, (dizem) foi de origem sifilítica. Nietzsche conviveu com a moléstia que progrediu lentamente até sugar-lhe o último sopro de vida.


Outro, que também escreveu movido pelas chorumelas, foi Bukowski: escreveu 50 livros tirando sarro da própria desgraça; recheando os escritos de ironia pra fazer de conta que não se importava com a merda que era a vida dele – ele não teria tido tantas úlceras se realmente não se importasse...

Os dois escrevem bem. Muito bem. Admirável e estupidamente bem. Não importa se sobre coisas boas ou ruins... Escreveram melhor do que muitos gurus de auto-ajuda que se proclamam felizes por aí, mas, ainda sim: só foram verdadeiramente reconhecidos depois de serem verdadeiramente infelizes e morrerem e enterrarem consigo todo o desamparo e destempero que usavam como inspiração.

Não. Eu não quero isso pra mim. Não quero viver uma via infeliz para poder escrever sobre ela e ser feliz postumamente. E compreendi que é isso que tem me torturado. Não quero uma obra que seria uma ode às moléstias e mazelas humanas. Não quero confortar o coração dos infelizes; não quero ser o alívio para a fraqueza dos outros, nem escrever o livro de cabeceira dos pessimistas do século XXI.

Posso até vir a escrever sobre um dia catastrófico, um amor destruidor, um amigo traidor ou uma doença terminal, mas me recuso a escrever apenas a custa da miséria de mim mesma.

Se eu tiver o azar de cair em um buraco negro, escreverei sobre a sensação de estar presa, acaçapada e encortinada por paredes sujas e negras; escreverei sobre a falta de ar, sobre o mal-estar, como faço agora mesmo, ao não encontrar saída para o dia de hoje, mas não escreverei que não me importo, nem afirmarei que sei lidar com o meu fracasso; não fingirei conforto ou controle ao me perceber condenada ao breu, assim como não culparei os demais fracos e fracassados do mundo pela fraqueza que toma conta de mim neste ou em qualquer outro momento.

Eu me recuso a ser engolida metaforicamente pela terra, antes de literalmente sê-lo. Assim como me recuso a só receber a recompensa pelo amor à escrita quando eu estiver a sete palmos do chão.

E me ocorre que entre todas as coisas geniais e patéticas que Bukowski escreveu, pelo menos uma eu entendo bem: “Essas palavras que escrevo são o que me mantêm livre da loucura total”. E se quer saber: de todas as minhas certezas, essa é a que mais incomoda.


Nicole Rodrigues

6 comentários:

Thais disse...

Nossa! Eu demoraria tempo demais pra comentar tudo.. E muito aqui se parece com como me sinto hoje. Pq eu sinto que a profissão que escolhi meio que me sufoca.. Mas eu tenho medo ainda, medo de ser mais e medo de me frustrar muito.. Enfim.

Eu não acho que alguém que tenha tanta auto-consciência e tanta fé seja assim fraca, como vc diz.. Talvez um momento de fraqueza, como muitos temos.

Que suas palavras ajudem a entender essa fase, ou seja lá o que isso for :)

Beijos!!! Eu tô sempre por aqui!!! hihihihi

Nathy disse...

Eitcha!!!
Vc é fantástica!!!!!!
Eu amo seus textos.
Seguinte: vou liberar lá no flickr o "copiar" assim fica mais fácil para vc salvar as fotos, né?
E até domingo te mando mais 5, pode ser?
Ando com uma cesta de abacaxis para descascar....
Beijosss

Tetê disse...

Nicole,


acho que querendo ou não, vc tem um pouco dos dois...

e sabe? acho isso perfeitamente natural
e saudável!

porque o problemas residem em achismos
e disso, amiga,
vc não sofre!



Boa noite, Linda!

Fica bem... precisando... vc já sabe
!!!!!

Nicole Louise disse...

Thais, que bom "revê-la", ou melhor, relê-la (rs). A fraqueza não vem se sentir-se demasiadamente capaz, mas sim de não saber o que fazer com tanta capacidade, e nos meus textos, falo apenas sobre mim. Sobre os meus momentos de fraqueza ou os de meus personagens.

Quanto à você: se ter medo se frustrar já está lhe frustrando, será que não vale a pena tentar e se frustrar de verdade (ou não), mas tentando?

Eu já li vários de seus textos e para mim está claro que você tem muita sensibilidade, discernimento e dedicação aos seus alunos, o que me parece uma ótima tríade de apoio à escolha de seguir o caminho de professora. Mas caso você, por uma razão ou outra, sinta que mesmo podendo ser uma ótima professora você quer ser uma outra coisa, ou um tipo específico de professora que requer mais esforço e energia: não tenha medo.

A capacidade, minha cara, vem sempre acompanhada de instintos, de desejos, de impulsos. Se você os recebe, deveria dar ouvidos e pernas a eles. Deveria tentar dar vida a cada um deles (os bons, produtivos e saudáveis, é claro).

:) Muito boa sorte!

Nicole Louise disse...

Tetê, que bom te "ver" por aqui. Obrigada pela preocupação e por estender a mão, mas este texto é bem velhinho (2006) e ainda, sim: é apenas um texto. Tudó está sob controle ;) Beijos querida.

Nathy, minha ruiva favorita, já salvei tudo o que podia e o que não deu pra salvar com o botão direito, slavei com o print screen (rsrsrs).

xxxxxx lindona!

R.Vinicius disse...

Oi.

"Escrevo. Basta a qualquer pergunta. Não é necessário saber o motivo. Escrever já basta. A única certeza que devo ter é essa. Escrever, escrever, escrever. Eis o motivo de arfar o ar. De correr os passos, de devorar noites insones.” Compartilho contigo a certeza de que é algo natural em mim o fato de escrever. Não é um espelho que me reflete para o outro, e me deforma para mim mesmo. Sobre as outras certezas “Posso naturalmente pensar que tenho certezas, mas podem naturalmente ser incertas. Parece loucura. Talvez seja. Dizem que sou louco. No entanto tenho certeza de que a certeza pode ser uma mera ilusão.”

Abraço,
R.Vinicius