quarta-feira, 17 de junho de 2009

O traficante de pessoas



O traficante de pessoas tem entre 25 e 40 anos. Tem jeito, tem papo e tem pinta de gente boa. Alguns são bonitos, educados, bem vestidos e até falam várias línguas. É o tipo simpático que é dono ou trabalha em bares, casas de show, agências de modelo, agências de encontro e, pasmem, salões de beleza.

Ele vai aparecer do nada, vai puxar assunto, vai sorrir descontraidamente e vai oferecer um chocolate, um chiclete, uma bebida, uma carona, ou prometer melhores oportunidades de emprego e condições de vida.

O fato de você e ele estarem no mesmo lugar, naquele dia e hora, e de ele parecer muito disposto a lhe ajudar: não é coincidência, muito menos sorte. Mas você olha para aquele moço bem humorado e gentil e duvida que ele possa te machucar.

Depois de atrair a sua atenção e conquistar a sua confiança, ele vai te distrair, atrair, seduzir, levar na valsa e te afastar da sua vizinhança, entrada da escola, ponto de ônibus, rodoviária, aeroporto, clube, boate ou qualquer outro lugar público onde ele tenha te encontrado. 

E quando você estiver num beco vazio, ou no carro, na casa, ou no “escritório” dele, ele vai usar a força. Não importa se você é menino, menina, mocinho, ou mocinha. Ele vai te bater, e provavelmente, vai te estuprar. Não uma, nem duas, mas várias vezes, antes de fazer uma ligação e avisar que “já chegou a encomenda”.


Você sentirá fome, sede, sono, medo e dor. Até o dia em que ele te colocar dentro de uma mala, de um porta-malas, de uma caixa, de um tanque de gasolina de caminhão, de um container de lixo... E quando você, finalmente, puder respirar: vai ouvir vozes e palavras que nunca ouviu antes. Você não reconhecerá nenhum rosto, nem entenderá uma palavra que eles dizem e, por isso, vai apanhar. Você tentará explicar que não entende nada, e vai apanha mais uma vez, para calar a boca. Você vai chorar de desespero e, por isso, também vai apanhar, e eles vão te bater tão forte que você vai desmaiar.


Você acordará num lugar pequeno, estreito, sujo e escuro. Perceberá que tem uma algema em um braço e marcas de agulha no outro, e levará horas, no máximo dias, para descobrir que, a partir daquele momento, a sua vida se resumirá à escravidão sexual, ao trabalho escravo ou à remoção de todos os órgãos do seu corpo, e que você morrerá no porão de uma casa na Holanda, na Espanha, na Itália, na Suíça, na França, na Polônia, na Rússia, na China, na Tailândia, na Argentina, no Paraguai, no Uruguai, no Chile, no Suriname ou no Camboja... todos os dias do ano.

Nota:
Cerca de 2,5 milhões de pessoas "desaparecem" todos os anos vítimas do tráfico humano. Onde elas estão? E por que NÓS não fazemos NADA a respeito?


Nicole Rodrigues

6 comentários:

Andrea Pio disse...

Nossa Nicole... que triste (horrível seria melhor) isto. Você já reparou que cada vez mais temos que nos proteger do convívio humano? Para onde a humanidade está caminhando?
Triste...
Ps: Li há poucos dias seu comentário em uma de minhas crônicas. Fico feliz que tenha gostado do que escrevo, e honrada principalmente porque seu blog é muito bom!!!
Abraço
Andrea

Thais disse...

É uma pena pensar nisso.. No dia que li nem consegui comentar.. Sei lá. Os humanos estão cada dia piores.. :(

R.Vinicius disse...

Oi.

Artigo (Crônica) é interessante, e bem escrito. Um fato triste da sociedade. Você é jornalista? Caso a resposta seja negativa, eu devo dizer - jornalismo seria um caminho muito bom pra ti. Parece contigo. Sobre o meu último comentário (Fico contente que tenha gostado.) Eu comecei um Romance no Folhas Avulsas e gostaria de receber sua opinião. Eu ainda sou um projeto de escritor (risos)

Abraço,
R.Vinicius

Nicole Louise disse...

Andrea, de fato, é horrível sim. Mas mesmo as coisas horríveis, ou principalmente elas, devem ser consideradas, tratadas, combatidas, curadas, extintas. Olhar pros lados e fazer de conta que não vemos. Tapar os ouvidos e fazer de conta que não ouvimos, não vai ajudar em NADA.

É importante enfiar o pé na jaca. É importante cavar fundo. Descobrir ao invés de cobrir o buraco que fede.

Fico feliz que você tenha lido o texto até o final. E espero que ele lhe estimule a cavar mais fundo.

Sobre o comentário deixado em seu blog: foi muito sincero de minha parte. Realmente me senti imersa em suas crônicas. Gostei bastante do seu estilo. Até já linkei o seu blog ao meu blog de direitos humanos "Acefalando" www.acefalando.blogspot. porque acredito que os assuntos tratados em seu blog se encaixam perfeitamente com os posts da minha segunda casinha virtual :)

É um prazer tê-la como seguidora.

Obrigada!

Um beijo enorme e continue o bom trabalho de conscientização.

Nicole Louise disse...

Thaís, minha cara, é sempre bom vê-a por aqui.

Não deixe que o "sei lá" seja mais forte do que o "eu quero saber". Saiba!

Os humanos são algozes, mas também são vítimas. É importante saber de que lado estamos, qual lado queremos ocupar ou ajudar.

Não saber, não livra o mundo do absurdo que ele se tornou. Saber tambem não livra, mas certamente pode ser uma ferramenta para evitar a perpetuação dos males.

Você é professora. A ferramenta está em suas mãos. Humanize seus alunos. Uma ou duas salas de pimpolhos não vai mudar o mundo, mas vai mudar alguma coisa. E alguma coisa é sempre melhor que nada :)

Um beijo grande!

Nicole Louise disse...

Vinícius (obrigada por tirar o "R" do seu nome - rs), as suas visitas tem um quê de especial. Você realmente compartilha as suas impressões comigo. E eu gosto disso. Mesmo sabendo que não tenho um blog com a intenção de ser avaliada e de descobrir o que as pessoas pensam sobre os meus textos, para que então eu descubra como escrever ou sobre o quê escrever. Eu escrevo. E isso é tudo o que importa para mim.

Mas confesso que gosto do fluxo de consciência que vez por outra invade o espaço reservado aos comentários. Gosto quando impressões e não avaliação são submetidas ao ato de "enviar" um comentário.

E você desde o primeiro post tem compartilhado comigo as suas impressões, não sobre a técnica, a rima, a métrica, mas sobre o texto. O texto como unidade, como ser independente de mim a partir do momento em que terminou de ser escrito. Gosto disso. Gosto mesmo.

Sobre o seu romance: o lerei sim. Pode apostar. Só não o farei hoje porque são 1:30 da manhã e estou atolada em trabalho. Mas o lerei e certamente compartilharei minhas impressões com você, já que você as solicitou.

Fique bem e até a próxima (que será logo, espero :)