terça-feira, 28 de julho de 2009

Milagre



Essa noite eu tive um sonho.
Um sonho que lembrei ao acordar.
E eu lembrei ao acordar porque nele você corria na areia da praia.
A praia que parecia deserta.
E nós dois parecíamos tão felizes...
Felizes como se comemorássemos um milagre:
o milagre de estarmos juntos,
juntos ao menos no sonho.
No sonho em que outro milagre acontecia: você corria.
Você corria no sonho que eu tive essa noite.

Nicole Rodrigues

Ametista



Arranquei do peito,
transformei em pedra,
pus num embrulho prateado
e pedi pro carteiro te entregar.

E o que era músculo vermelho
virou preciosidade lilás,
- era só um coração...
do era feito tanto faz.


Nicole Rodrigues

Borders



As bordas do fim do mundo não têm catupiry.

Nicole Rodrigues

domingo, 26 de julho de 2009

Vinte e seis


Com essa são vinte e cinco pétalas
que caíram por inteiro.

Nicole Rodrigues

Sleepy eyes



 

Os olhos cansados borram os versos.

Nicole Rodrigues


quinta-feira, 16 de julho de 2009

À francesa



A fuga à francesa de um duelo tem seu preço
e a minha punição será marchar.
Marcha soldado! Um, dois, três mil.
Marcha até sangrar.

Desviei da linha de combate
e preguei peças à loucura
para não te enfrentar.

Juro, não quis sangrar teu coração,
só quis marchar.

Soldados não partem,
só retomam o caminho.
De hoje em diante
de tudo farei um pouco,
menos atear fogo em meus sonhos.

E irônico é saber que tantos teus também são meus…
Primeiro frágil, depois invisível.
Fui cristal até os dezessete, depois embruteci.
Fui cadáver antes mesmo de morrer.
Agora meu corpo doente se rende ao mundo
e meu coração respira fundo quando pensa em ti.

Se ao menos tu soubesses o quanto te amo
e quantas batalhas venci…
Mas tu não sabes, não é?
E eu nunca te contei…
Tú não és o inimigo,
és a bandeira, és o mastro, és meu forte.

Não sou do povo,
não sou da lei,
não sou de Deus,
mas sou tua.

Não enxergo como tu,
não sou o que tu és,
não sou como queres
mas sou o que sou
e sei que posso me salvar…

Existe vida em outro planeta
e sei que posso viver lá.
Sei também
que em frente ao pelotão não posso chorar.
E se choro, não é por teu perdão,
mas sim por tua estima.

Soldado que é soldado
sabe que tem que marchar.
Soldado que é soldado
segue em frente mesmo sozinho.
Mas se um dia tu disseres que me ama,
verei hortências em meu caminho.

Nicole Rodrigues

sábado, 11 de julho de 2009

Olhos vermelhos



Ela segurou o rosto dele entre as mãos, o beijou rapidamente e saiu...

Assombrado pelas dúvidas ele se debruçou sobre a varanda do décimo terceiro andar, de onde a observou atravessar a rua do prédio onde moravam, nos braços de outro homem... Um homem bonito, alguns anos mais jovem que ele, talvez... Não dava pra ter certeza olhando de tão longe... Mas isso não era importante. A única coisa que realmente importava é que “Dessa vez ela foi longe demais...” .

Ele se manteve acordado, e alerta a qualquer movimento na portaria, até as 3 da manhã. Sentado no chão, tentando abrir espaço por entre as grades, ele reconheceu o vulto de cabelos escuros e curtos que se despediu de um rapaz, com um beijo demorado, antes de finalmente abrir o portão de ferro... “A audácia dela não tem limites, nunca terá”.

Ele levantou, deu as costas para a cena e, na ponta dos pés, encaixou os quadris sobre a estrutura de metal que emoldurava a varanda. E como se quisesse guardar uma lembrança boa de um tempo ruim, vasculhou o apartamento com os olhos, uma última vez... Um espaço tão pequeno, a mobília quase simbólica: um móvel em cada cômodo, como se a intenção fosse apenas demarcar o lugar ao qual pertenciam... Uma cama de casal no quarto, um sofá branco na sala, um cesto de roupa suja no banheiro e uma geladeira na cozinha... (todos comprados por ele).

Era pouco, mas bastaria, não fosse o olhar sedutor, o tom suave e sussurrado dela, sempre reservado aos outros, e as migalhas de atenção reservadas a ele. Cada migalha o alimentava por dias a fio, até que "Eu a amo e ela ama despertar paixões".

Ainda sim ele queria vê-la uma última vez... Esperou a maçaneta girar, permitiu que ela o fitasse surpresa por alguns segundos, e se limitou a dizer: “Para certas coisas não há desculpa... apenas culpa”.

E quando as pernas dele se alçaram no ar, condenando-o a um vácuo de 13 andares, ela não teve dúvidas de que jamais esqueceria aqueles olhos vermelhos.



Nicole Rodrigues


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Transversal


Acordo entre um sonho e um pesadelo
para escrever versos
no verso do meu travesseiro.

Nicole Rodrigues

terça-feira, 7 de julho de 2009

Onze



Se havia sangue, não lembro.
Lembro dos dedos rápidos
me queimando por dentro,
da dor nunca antes sentida,
da noite mal dormida
e dos pesadelos.
Mas se havia sangue, não lembro.
Vai ver o sangue só jorrou em pensamentos.

Nicole Rodrigues

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Versos tímidos



Os poemas sobre as coisas que eu não disse
dizem muito mais.

Nicole Rodrigues