quinta-feira, 16 de julho de 2009

À francesa



A fuga à francesa de um duelo tem seu preço
e a minha punição será marchar.
Marcha soldado! Um, dois, três mil.
Marcha até sangrar.

Desviei da linha de combate
e preguei peças à loucura
para não te enfrentar.

Juro, não quis sangrar teu coração,
só quis marchar.

Soldados não partem,
só retomam o caminho.
De hoje em diante
de tudo farei um pouco,
menos atear fogo em meus sonhos.

E irônico é saber que tantos teus também são meus…
Primeiro frágil, depois invisível.
Fui cristal até os dezessete, depois embruteci.
Fui cadáver antes mesmo de morrer.
Agora meu corpo doente se rende ao mundo
e meu coração respira fundo quando pensa em ti.

Se ao menos tu soubesses o quanto te amo
e quantas batalhas venci…
Mas tu não sabes, não é?
E eu nunca te contei…
Tú não és o inimigo,
és a bandeira, és o mastro, és meu forte.

Não sou do povo,
não sou da lei,
não sou de Deus,
mas sou tua.

Não enxergo como tu,
não sou o que tu és,
não sou como queres
mas sou o que sou
e sei que posso me salvar…

Existe vida em outro planeta
e sei que posso viver lá.
Sei também
que em frente ao pelotão não posso chorar.
E se choro, não é por teu perdão,
mas sim por tua estima.

Soldado que é soldado
sabe que tem que marchar.
Soldado que é soldado
segue em frente mesmo sozinho.
Mas se um dia tu disseres que me ama,
verei hortências em meu caminho.

Nicole Rodrigues

4 comentários:

R.Vinicius disse...

Oi.

Ao lê-la lembrei do filme "As Horas." Você já viu este filme? É um drama, e um dos meus filmes favoritos. Se não viu o filme ainda, eu te indico, talvez ao vê-lo você entenda o comentário.

(Hoje não estou bom em discorrer uma opinião nítida.)

Abraço,
R.Vinicius

R.Vinicius disse...

Oi.

“Virginia deixa Londres e se refugia em um vilarejo qualquer, remoto, onde pode respirar o ar puro da pequena vila, e também conhecer menos os males que lhe acomete o espírito.” A fuga.

“A loucura não é um monstro a espreita, nem a escura, ou espessa noite que cobre – não há como discorrer sobre o fato de ser louco, pois tentá-lo por si é loucura.” A loucura.

Tentei – talvez de uma forma não muito eficaz falar nestas duas frases à lembrança que despertou em mim o seu poema. Talvez lhe venha de forma mais nítida a cena onde “Virginia foge até a estação de trem, onde solitária se senta no banco branco de madeira, e aguarda a locomotiva – quer deixar aquela calmaria e tocar a invisível inquietude de Londres, a mesma inquietude que abarca o âmago da escritora.” A discussão entre ela e o marido que acaba nas silenciosas lagrimas do homem, que diz que a ama demais.

Abraço,
R.Vinicius

Andrea Pio disse...

Nossa, que genial este poema.
Elegí o seguinte trecho o meu preferido:
"De hoje em diante
de tudo farei um pouco,
menos atear fogo em meus sonhos.
E irônico é saber que tantos teus também são meus…"

O mais importante de tudo é jamais atearmos fogo em nossos sonhos!

Abraço e parabéns,
Andrea

Nicole Louise disse...

Vinícius, suas citações, ao contrário do que pensas, foram muito eficazes. Agora posso dizer que sei exatamente o que você quis dizer quando comentou que pensou no filme As horas ao ler este poema.

Virgínia Woolf é a mulher que mais me intriga nesta vida. A ela tenho dedicado anos de leitura e estudo biográfico. Não escrevi este poema pensando nela, escrevi para minha mãe, mas "o irônico é perceber que tantos sonhos meus também são dela". E que apesar de todo o amor que Leonard dedicou a Virgínia (e vice-versa), ainda assim havia tantas perguntas, tanta confusão, tanta na vida dela, que ela permitiu que as pedras a carregassem para o fundo daquele rio.