sábado, 11 de julho de 2009

Olhos vermelhos



Ela segurou o rosto dele entre as mãos, o beijou rapidamente e saiu...

Assombrado pelas dúvidas ele se debruçou sobre a varanda do décimo terceiro andar, de onde a observou atravessar a rua do prédio onde moravam, nos braços de outro homem... Um homem bonito, alguns anos mais jovem que ele, talvez... Não dava pra ter certeza olhando de tão longe... Mas isso não era importante. A única coisa que realmente importava é que “Dessa vez ela foi longe demais...” .

Ele se manteve acordado, e alerta a qualquer movimento na portaria, até as 3 da manhã. Sentado no chão, tentando abrir espaço por entre as grades, ele reconheceu o vulto de cabelos escuros e curtos que se despediu de um rapaz, com um beijo demorado, antes de finalmente abrir o portão de ferro... “A audácia dela não tem limites, nunca terá”.

Ele levantou, deu as costas para a cena e, na ponta dos pés, encaixou os quadris sobre a estrutura de metal que emoldurava a varanda. E como se quisesse guardar uma lembrança boa de um tempo ruim, vasculhou o apartamento com os olhos, uma última vez... Um espaço tão pequeno, a mobília quase simbólica: um móvel em cada cômodo, como se a intenção fosse apenas demarcar o lugar ao qual pertenciam... Uma cama de casal no quarto, um sofá branco na sala, um cesto de roupa suja no banheiro e uma geladeira na cozinha... (todos comprados por ele).

Era pouco, mas bastaria, não fosse o olhar sedutor, o tom suave e sussurrado dela, sempre reservado aos outros, e as migalhas de atenção reservadas a ele. Cada migalha o alimentava por dias a fio, até que "Eu a amo e ela ama despertar paixões".

Ainda sim ele queria vê-la uma última vez... Esperou a maçaneta girar, permitiu que ela o fitasse surpresa por alguns segundos, e se limitou a dizer: “Para certas coisas não há desculpa... apenas culpa”.

E quando as pernas dele se alçaram no ar, condenando-o a um vácuo de 13 andares, ela não teve dúvidas de que jamais esqueceria aqueles olhos vermelhos.



Nicole Rodrigues


3 comentários:

R.Vinicius disse...

Oi.

Gostei da história. É intensa, bem escrita, e o final é triste mesclando o trágico. Vou ler o post anterior.

Abraço,
R.Vinicius

Andrea Pio disse...

Fico aqui pensando com meus botões...
Será que ela se sentiu culpada depois?
E será que eram pequenas mesmo as tais migalhas? Ou ele que as reduzia demais?
De qualquer forma, a cena que ele presenciou não deixa dúvidas de que realmente, o amor dela já havia pulado pela janela antes dele.

Abraço,

Andrea

Nicole Louise disse...

Obrigada Vinícius. Você é sempre muito bem-vindo.

Andrea,

Boa pergunta. Não sei até que ponto o que ele sentiu foi maximizado; não sei se ele era uma hiperbole ambulante (rs). Mas gosto de pensar que ele não teria se atirado da janela num ato puramente dramático. Acho que ele vinha lutado contra a indiferença crescente dela há um bom tempo... e que, infelizmente, resolver desistir da vida, ao invés de apenas desistir dela. Uma pena.