quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A loucura me visitou hoje cedo




A loucura me visitou hoje cedo. Com flores, vinho e velas acesas numa mesa para dois.


Ela disse que gostaria de caminhar a meu lado até o fim dos tempos, e que, se eu a deixasse ficar, eu veria o mundo através dos seus olhos. Disse que existem segredos embutidos em cada um dos sentidos que não aprendi a usar, que existem mais cores do que sou capaz de contar e que me ensinaria a sussurrar em voz alta.


Disse também que é possível, e preciso, não pensar, apenas sentir, o que quer que seja, a todo momento; disse que a vida nada mais é do que o avesso. Perguntei: “O avesso do quê?”. E ela consentiu. 


Descrente, apaguei a chama de uma vela sem querer e outra de propósito. Paciente, ela tornou a acendê-las: uma com um palito de fósforo e outra com um isqueiro e, quando acabou, pousou uma das taças sobre os meus dedos. 


Deixei a taça virar e ela me ofereceu uma pétala branca como guardanapo. Fechei os olhos e senti o vinho escorrer por entre minhas pernas.


Ameaçadora, ela disse que os que a recusam estão fora de si; que eu jamais a veria novamente e que, em pouco tempo, ela enviaria alguém que me viraria do avesso para todo o sempre.

Nicole Rodrigues

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Poema pálido



Um poema pálido,
chegou sem avisar.

Reprimido é que não será!
Vem cá, senta aqui;
vou te escrever.


Nicole Rodrigues


Agosto






Em meio
a estradas e pinheiros,
entraves e igrejas,
pesadelos e azulejos,
ruadelas e esteiras,
insisto em me perder
numa floresta sueca,
num mês de agosto
que queria ser setembro.

Nicole Rodrigues

Camundongo II



O camundongo batalha, revira, remexe e chacoalha,
mas só cai nos buracos que ele mesmo encolhe.

Ele levanta todo dia bem cedinho:
cava, planta, rega e colhe.

E cada semente é escolhida a dedo:
um amor, uma chance, um amigo, um segredo.

Porque camundongo de verdade
não é feliz pela metade.


Nicole Rodrigues

Pança



O urso sempre cai de pança
e nunca alcança o galho.

Nicole Rodrigues


domingo, 2 de agosto de 2009

Esmeralda




Tudo o que me falta
sobra em ti...

Em teus olhos verdes,
teus cabelos dourados
e na tua voz rouca
de poucas palavras.

Tua paciência,
teu gosto pelo amarelo
e tua vontade de dividir o pincel

fizeram com que eu te desejasse em meu útero
por um minuto
- o minuto em que te ensinei a pintar.



Nicole Rodrigues