quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A loucura me visitou hoje cedo




A loucura me visitou hoje cedo. Com flores, vinho e velas acesas numa mesa para dois.


Ela disse que gostaria de caminhar a meu lado até o fim dos tempos, e que, se eu a deixasse ficar, eu veria o mundo através dos seus olhos. Disse que existem segredos embutidos em cada um dos sentidos que não aprendi a usar, que existem mais cores do que sou capaz de contar e que me ensinaria a sussurrar em voz alta.


Disse também que é possível, e preciso, não pensar, apenas sentir, o que quer que seja, a todo momento; disse que a vida nada mais é do que o avesso. Perguntei: “O avesso do quê?”. E ela consentiu. 


Descrente, apaguei a chama de uma vela sem querer e outra de propósito. Paciente, ela tornou a acendê-las: uma com um palito de fósforo e outra com um isqueiro e, quando acabou, pousou uma das taças sobre os meus dedos. 


Deixei a taça virar e ela me ofereceu uma pétala branca como guardanapo. Fechei os olhos e senti o vinho escorrer por entre minhas pernas.


Ameaçadora, ela disse que os que a recusam estão fora de si; que eu jamais a veria novamente e que, em pouco tempo, ela enviaria alguém que me viraria do avesso para todo o sempre.

Nicole Rodrigues

4 comentários:

Carol Vianna disse...

Não é tão ruim ser do avesso. Eu sempre fui. Mas olha, com o tempo você vira e desvira conforme suas necessidades. Hoje em dia, por exemplo, eu aprendi a virar gente normal. Mas só as vezes, pq sempre é muito chato.

Beijos

R.Vinicius disse...

“O que houve no segundo passo, quando a loucura lhe deixou a espera de outro? Este alguém apareceu com a gratuidade do repentino?” Como estás? Faz tempo que não a vejo, nem recebo noticias. Espero que esteja bem. Abraço.

Juliana Migliorati disse...

OIIii.. Te encontrei em outro lugar lindona kkkkk...
Lindo o blog vc escreve maravilhosamente bem! Muitos beijinhos agora de médico e louco td mundo tem um pouco kkkkk...

Andrea Pio disse...

Cada vez você se supera mais em seus textos. Gostei muito deste... se pensarmos que o conceito de loucura se transforma com o tempo, há algo que sempre permanece independente do conceito: o ato de sair de si mesmo.
Esta Sra. Loucura me pareceu gentil mas... fico feliz que não permeneça, pelo menos o tempo todo!
Abraço,
Andrea