quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por inteiro



Ele não foi o primeiro, mas seria o último

outro alguém não haveria
de senti-la por inteiro.




Nicole Rodrigues

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O saco das louças e dos dias



Uma pia cheia de louças. Um, dois, três... quatro pratos. Seriam então quatro dias? Não, não, mais de uma refeição por dia. Dois dias talvez? Mas não lembro de ter jantado ontem, nem antes de ontem... então talvez sejam os pratos dos três almoços dos três últimos dias, mais o prato do jantar de antes de antes de ontem. É, deve ser isso. Já os talheres... colheres de sopa e de sobremesa. Garfos de três e de quatro dentes. Facas com cabo de madeira e de acrílico. Uma concha perdida na panela da canja que estragou.

Sede. Onde foram parar os copos? Na mesa, na cômoda, no criado-mudo... na pia cheia de louça. Nove, dez, onze copos sujos. Logo terei que começar a usar as tigelas. Suco, chá, leite e vitamina C − que acabou já faz um tempo. E não foi só o leite que acabou...

Fome. Logo mais terei que ir ao mercado. Não encontro o pão em lugar nenhum. Comprei um pacote outro dia. Procuro a embalagem no lixo. Lá está ela. Devo ter comido tudo então. Coloco-a de volta na pilha de lixo acumulado sob a pia. Um odor desagradável vindo dos dois, três... três sacos de lixo. Então são três dias. Três dias sem sair de casa. Eu sempre coloco o lixo pra fora quando saio de casa. 

Uma pizza. Vou pedir uma pizza, assim paro de contar as louças, os sacos e os dias.

Nicole Rodrigues
 


sábado, 24 de abril de 2010

Maroto


Queria uma moldura
para o sorriso maroto
em papel reciclado
que insiste em me fitar.

Nicole Rodrigues

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pocket



Te guardei no bolso do meu casaco
para tapar o buraco
que você deixou.

Nicole Rodrigues

Blasfêmias




Incapaz de me explicar sem usar blasfemias,
tratei de calar.



Nicole Rodrigues

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Procrastination



Feliz se dizia
sem pressa e
sem alarde
quando deu o primeiro passo:
já era tarde.

Nicole Rodrigues

Fêmea



Em dias como este
em que as entranhas
descamam e sangram
eu desejo, como em nenhum outro dia,
não mais ser fêmea.



Nicole Rodrigues

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Refém



 A inquietação me possuiu.
Tomou conta do meu corpo.
Ora pertenço a um,
ora pertenço a outro.

Às vezes me insinuo facilmente,
noutras dificulto um pouco mais;
às vezes me entrego totalmente,
noutras me preservo um pouco mais.

Às vezes sinto asco, repúdio,
noutras até sinto prazer...
Fecho os olhos pra ver se aproveito,
mas o final é sempre o mesmo:
eu me arrependo.

Tento enganar meu próprio corpo,
imaginando que o membro a me explorar pertence a ti,
mas no final tanto faz,
porque todo o meu esforço prova-se inútil, ineficaz.

E a prova irrefutável da recusa deste corpo
a se entregar a outro alguém
é a recorrente negação
da qual me mantenho refém. 

Nicole Rodrigues

Uma vez mais eu morro



Morri mais vezes do que posso contar,
mas todas as vezes que eu morro
eu decido voltar,

e sempre que eu volto
você não está.

Por que você não volta
nem que seja para me matar de uma vez?
De alegria ou de tristeza... não importa.

Cansei de morrer aos poucos.

Nicole Rodrigues

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Pulse


Depois de meses anêmicos voltei a pulsar
− um poema atrás do outro! Voltei a respirar
em rimas, ritmos e risos.


Nicole Rodrigues