segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Andar por entre a gente



I

A primeira condição é o desapego. Abandonar amigos, família, amantes, amores. Nem sempre de um modo literal, físico, ou ainda consciente, mas o suficiente para garantir a distancia necessária para se viver sem eles. É solitário andar por entre a gente, mas nós andamos. Solitários, depressivos ou insanos, todos nós, escritores, compartilhamos a arte da contemplação. E é assim porque um escritor precisa de dois mundos. Um para observar, e sobre o qual escreverá, e outro para viver enquanto escreve sobre o primeiro.


II

Cofres com binóculos, microscópios, lupas, papel e caneta, ou teclado… estamos todos trancamos dentro de nós mesmos, num mergulho que nem sempre tem volta. E eu tenho tanto medo de um dia não voltar. Tenho medo de um dia ir morar nos meus contos.


III

Escrever é a única coisa que me mantém viva nesse mundo sobre o qual escrevo.
Escrever é a única maneira de transformar meus demônios em servos.
É por isso que todos os dias me forço a mergulhar.
E o final de cada texto meu traz consigo um alívio indescritível.



Nicole Rodrigues

Um comentário:

Andrea Pio disse...

Nicole!
Acabei de ver seu recado Nas Entrelinhas, e vim parabenizá-la pelo livro... que maravilha.

É lógico que não poderia deixar de comentar este maravilhoso texto que escreveu.
Acho que todos os escritores possui uma relação totalmente paradoxal com o mundo: um distanciamento inevitável e, ao mesmo tempo... um apego inesgotável. Se distanciam ao observar, ao analisar, ao encarar de forma subjetiva o que a vida às vezes - objetivamente - nos impõe. E se apegam àquelas pequenas cenas, às incertezas dos breves minutos, aos sentimentos sentimentos - instintos racionalizados - que não são de ninguém. E com isso, se refazem em cada texto e ao final... respiram... e pensam: agora terei mais uns minutos de paz...

Abração e parabéns de novo pelo seu filho primogênito livro!