quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Andarilha



Quero simplesmente dar o fora,
fechar a porta,
procurar um rumo
e seguir.


Ir pra bem longe
de mim ou de tinão importa
... quero partir.

Nicole Rodrigues

Judas



Tu, que finges orgulho ferido
ao ler meus desabafos em forma de pergaminho,
por que não escreves os teus próprios versos
ao invés de condenares os meus ao reverso?

Nicole Rodrigues

domingo, 26 de setembro de 2010

Monk's house


Querida Virgínia, 

Hoje, um dia antes do meu vigésimo quinto aniversário, algo muito especial aconteceu: eu fui te visitar. Viajei mais de 100 milhas até encontrar a tua casa de campo. Que linda casa, Virginia! Branca, da janela aos pés... tão simples, mas tão rica. Rica em detalhes. Em detalhes livres. Confesso que esperava algo maior e mais tradicional. Mas grande mesmo só o teu jardim. E que jardim, Virgínia. O mais belo que já vi! Na sala eu pensei que encontraria toalhas e cortinas brancas, de renda e, quem sabe, porcelana chinesa, mas não. Nada disso encontrei. Tu eras simples, Virgínia?

O teto todo seu é aparente, com as vísceras de fora; tão bruto e inacabado... com as vigas expostas, para quem quiser ver. Nada de forro, nada de sanca, apenas a laje, as ripas e a massa corrida... Uma mesa de madeira com seis cadeiras, uma estante repleta de livros, um abajur, e, encostada eu uma das paredes, estava a mesa do Leonardo. Que letra linda ele tinha! Eu li no envelope... 

No seu quarto encontrei mais livros − “Freesias” de W.F Mackenzie, era um favorito? −, uma pia branca, uma cadeira, uma poltrona verde coberta por uma manta decorada com flores tricotadas, uma cama de solteiro, lençóis brancos, duas janelas. Uma para norte e a outra para o oeste. Tu gostavas de ver o sol nascer? 

Os móveis da cozinha, quase todos de madeira, pintados à mão. Desenhos infantis? Quentin, Angélica ou Vanessa? Quem pintou a cristaleira Virgínia? A louça também foi pintada − desenhos curiosos: desalinhados, caricaturas, retratos... 

Não encontrei muitos espelhos. Apenas um, feito com conchas cor de rosa. Tu não sabias que era bela? E quando foi que vistes o mar? E por que a água, Virgínia? Por que a água? 

Nicole Rodrigues

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Bandoleira




As lembranças chegam em bandos,
deixando a saudade
e atiçando o desejo
de que o passado volte a ser presente
e o futuro volte a ser possível.


 Nicole Rodrigues

Diabolic



Teu desejo não é segredo
nem pra mim nem pra ninguém.

É cobiça encegueirada,
constante,
latente,
alarmante,
desenfreada.

Um desejo que faísca em olhos vidrados
e que de tão óbvio faz rir
todos aqueles que te observam a me seguir.

De um lado pro outro:
inquieto, incessante, insistente...
Mais parece um parasita!

Pupilas dilatadas,
gestos largos,
suspiros,
gargalhadas.

Teu corpo é soldado bem treinado
e disposto a me convencer
que outra, além de mim,
não é do teu agrado.

Tanto te dedicastes ao personagem
viril e galante que me conquistaria
que acabastes sendo preso
em tua própria armadilha.

Esperavas que eu te venerasse
e que como prova de devoção
meu corpo a ti eu entregasse...

Astuto cavaleiro da armadura enferrujada
por que tanto esmero em uma só emboscada?
Nessa rede de interesses nefastos e insólitos
de amores inclementes e bucólicos...

Proclamando a ti mesmo o dono de minh'alma;
subestimando minha inteligência
e ostentando tua perspicácia
- Que audácia!

Tua sede incurável e doentia
te obrigará a ouvir por mais uma dia:

Diabolic,
pretenso mestre da conquista,
chega de tanta cortesia fajuta.
Basta, não insista!

Pelo desejo não te culpo,
mas tua traquinagem merece punição.
De agora em diante
te privarei de minha companhia,
e te recusarei à exaustão.

Não. Não te atrevas a dizer mais nada.
Tens o que merece:
és vítima de tua própria cilada.



Nicole Rodrigues

Manisfesto divino


De tanto ouvir lamentação,
Deus impôs ao seu anjo de confiança
uma provação: “Desça até a terra
observe e anote tudo. Esta é a tua missão.”

Após sete dias vivendo como humano,
em seu relatório o anjo escreveu:

assassinato,
estelionato,
suicídio,
extinção;

sequestro,
estupro,
assalto,
prisão;

corrupção,
descaso,
chacina,
rebelião;

Senhor,
o mundo está pegando fogo
e ninguém parece se importar...

Os bombeiros estão feridos
sob os escombros das torres gêmeas caídas;

os policiais são executados,
em plena luz do dia, nas principais avenidas;

os seguranças, coitados,
são atacados em suas próprias guaritas;

e os médicos se esforçam,
na tentativa de curar tantas feridas.

O que mais ouço pelas ruas
é uma questão em forma de prece:

“Ó misericordioso Pai,
responda-me, por favor:
O que será de minha raça?
Olhai por nós, Senhor.”

A resposta de Deus:

“Caro bicho-homem, bicho burro,
inconsequente e atroz,
por que te pões a olhar pro céu e rezar
se o culpado de tudo isso sois vós?

Não me peça para salvá-lo.
O que tens sofrido é fruto de tua própria luxúria.
Condenado estás a viver sozinho, pobre criatura."

Nicole Rodrigues

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Inteiro


#
Eu acho
que você acha
que você foi
o meu primeiro amor.

#
Ele não foi o primeiro, mas seria o último.
Outro alguém não haveria
de senti-la por inteiro.

Nicole Rodrigues