quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Orvalho


E não é o sereno
o mais próximo a que chegamos da lágrima
quando imersos na natureza,
que nos recebe sempre de braços abertos
mesmo quando prestes a nos sufocar?

Um menino perdido,
com fome de amor
e medo do escuro
é tudo o que um bosque tem a ganhar.

E se para ter orvalho
for preciso prendê-lo entre os galhos,
soterrá-lo em folhas
e esmagá-lo de dor
então que assim seja!

Qualquer coisa que o force a chorar
a crescer,
a reagir
e renascer.
Nicole Rodrigues

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mar de sargaço



Escrever, cuidar de filhos e lembrar de ser mulher não é pouca coisa. Só sabe quem é. Foi por isso que o maldito te largou, não foi? Porque você não deu conta. Mas também, coitada, como poderia? Ele escolheu ser poeta, pai ausente e galinha. Tudo na mesma vida. E você ali, tendo que se multiplicar... No seu lugar eu teria feito o mesmo: escolhido uma redoma. A sua foi de vidro, para ficar quietinha, vendo a vida passar − na esperança de que ela te deixasse em paz.

Você bem que tentou: nem o frio de lascar, nem a visão do abismo te impediram de confidenciar agonia e fúria às centenas de páginas que te fizeram companhia. Mas quando a redoma estalou, trincou e finalmente quebrou, você não conseguiu voltar, não foi? Aqui para o meio de nós, com todo esse barulho, esse choro, inclusive o seu. E uma fornada de si mesma, pareceu a solução. Um último suspiro, gasoso, de alívio. Oh, Sylvia!

Nicole Rodrigues

Foto de Sylvia Plath: Mortimer Rare Book Room (1956)


sábado, 13 de novembro de 2010

Vinícula



O vinho se recusa a levar meus medos embora,
então os engulo, enfio o dedo na garganta
e boto tudo pra fora.

Nicole Rodrigues

Upsilamba




É um abraço apertado
Namorado
De dentro pra fora
Sem hora para acabar

É um carinho gostoso
No pescoço
Que ouriça os sentidos
E derrete o juízo

É um cartão de aniversário
Feito a mão
Recheado de rabiscos
E retratos

É uma visita surpresa
uma delícia
uma beleza
de brigadeiro
de picadeiro
lotado.

É um atalho
um agasalho
um balanço
numa rede
de descanso

É um silêncio repentino
permanente
latente
e gritante
no ouvido da gente.
Nicole Rodrigues