quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Mar de sargaço



Escrever, cuidar de filhos e lembrar de ser mulher não é pouca coisa. Só sabe quem é. Foi por isso que o maldito te largou, não foi? Porque você não deu conta. Mas também, coitada, como poderia? Ele escolheu ser poeta, pai ausente e galinha. Tudo na mesma vida. E você ali, tendo que se multiplicar... No seu lugar eu teria feito o mesmo: escolhido uma redoma. A sua foi de vidro, para ficar quietinha, vendo a vida passar − na esperança de que ela te deixasse em paz.

Você bem que tentou: nem o frio de lascar, nem a visão do abismo te impediram de confidenciar agonia e fúria às centenas de páginas que te fizeram companhia. Mas quando a redoma estalou, trincou e finalmente quebrou, você não conseguiu voltar, não foi? Aqui para o meio de nós, com todo esse barulho, esse choro, inclusive o seu. E uma fornada de si mesma, pareceu a solução. Um último suspiro, gasoso, de alívio. Oh, Sylvia!

Nicole Rodrigues

Foto de Sylvia Plath: Mortimer Rare Book Room (1956)


3 comentários:

Kovacs disse...

Lindo texto. Viva Sylvia!

Nicole Rodrigues disse...

Obrigada Kovacs. Que bom que vc gostou :-) xxx

Nicole Rodrigues disse...

p.s: Viva!