sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Acalanto



Ainda que o medo
faça tua mão escorregar,
tua boca secar,
teu abraço afrouxar,
teu corpo esquivar,
tua memória trair.

Te  confortarei em meu braços,
te ninarei em meu colo
e cantarei bem baixinho:
“Não temas tanto assim.”


Nicole Rodrigues

Mina mente minha



Você pergunta para onde vou
Quando meu corpo ainda nu
Coberto pelo teu
Se mostra quieto e distraído

Um pensamento,
um sonhando acordada,
um desejo,
um relampejo?

Para onde vou?
Quando meus olhos ignoram os teus
e dão mais atenção ao inseto curioso,

de aspecto impreciso.

Uma dúvida,
uma certez,
uma curiosidade,
uma válvula de escape?

Para onde vou?
Quando as palavras me minam a mente

e me faltam na boca.

Um código secreto,
um portal,
um voto,
um decreto?

Para onde vou?
Quando fujo em pensamentos
do aconchego dos teus braços.

Uma viagem,
uma alucinação,
uma dor de cabeça,
uma premonição?

Para onde eu vou
não cabe mais um.
Para onde você vai
eu também posso ir?
Nicole Rodrigues

domingo, 23 de janeiro de 2011

Violet



Não sei por onde começar.

O luto premeditado tomou conta de mim. Sei que vou partir, mas tenho medo. Medo do dia em que baterei a porta com toda a raiva e tristeza que me mantêm acordada nas noites insones que eu havia reservado para o descanso e para o amor. Mas todas as manhãs eu acordo sem os dois. E, cabisbaixa, passo o dia a evitar os espelhos...

Meu corpo encolhido sob as cobertas de lã que não me protegem do inverno nem de mim mesma. Garganta e coração gelados queimando por dentro: uma agonia nova, mas não menos dolorida.

Eu voltaria para casa... se ainda tivesse uma.


Nicole Rodrigues

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A luva e o violão


Numa mão a luva, na outra o violão.
Você cantou para eu dormir
e eu te desconjurei.


Nicole Rodrigues

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Rato traquina



Essa é a história do rato traquina.
Um bicho tão sabido, mais tão sabido,
que sempre conseguia o que queria.

Reza a lenda que um belo dia ele estava tão faminto
que saiu do esgoto, na surdina,
rumo a um lindo castelo, na cidade vizinha.

Foi chegando de mansinho tentando abrir caminho.
Pra lá e pra cá, saracoteava sozinho e vivia a repetir:
“Rato que é rato tem que roubar comida direito.
Tudo bem rapidinho pra não correr o risco de ser pego”.

No castelo ele chegou, todo cuidadoso:
um olho no chumbinho e outro na ratoeira.
Mas o serelepe ratinho mal sabia
que a pior das armadilhas nenhuma dessas seria...

Descendo a escadaria rumo à cozinha
deu de cara com a rainha:
- Ohhh, mais que bela!

Já no último degrau
deu de cara com a princesa:
- Mais uma?! Ahhh há há, que beleza!

O rato ficou tão encantado
que não conseguiu decidir
qual das duas queria ter ao seu lado.

“E agora, e agora, o que é que eu vou fazer?
Sem aquelas duas eu não quero mais viver.”


Num ato de bravura, o bichano foi até o rei e lhes disse:

“Majestade me perdoe pelo rato que sou,
a amar suas mulheres condenado estou.
Daqui não posso e nem quero mais sair.
Estou confessando o crime que cometi.

Por isso me puna, me prenda,
me enfie no seu calabouço.
Lá eu ficarei bem quietinho
e não mais causarei mais nehum alvoroço”.

O rei, muito aborrecido com a traição,
tratou de condenar o rato à reclusão:

“Foi procurando comida
que se encantou com a rainha;
foi procurando comida
que se encantou com a princesa;
ficarás preso em uma cela suja e vazia
e jamais conseguirá o que tanto deseja”.

Horas mais tarde a prisão do traquina já era notícia
e todo mundo finalmente entendeu
o que na cabeça do ratinho sapeca sucedeu,
já que lá do jardim a gargalhada dele se ouvia:

“Há, há, há! Ficar preso aqui
era tudo o que eu queria.
De agora em diante farejarei noite e dia
a comida do castelo, a mulher do rei e a sua filhinha”.

Pelo visto o velhote do rei não percebeu
que nem a grade, nem as paredes de concreto
poderiam deter um ratinho tão esperto.

Nicole Rodrigues


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Descartes


Quisera eu ter te matado quando pude,
logo apor o espanto
de sentir teus dedos forçados dentro de mim.

Quisera eu ter golpeado a faca
que ainda tive forças para buscar
no teu peito covarde, perverso.

Eu ali, ignorante,
sem saber que uma víscera afunilada
te daria acesso à minha alma.

Virei mulher sem querer,
sem poder
dizer não.

Se ousares voltar
a me visitar em meus sonhos
juro que dessa vez não errarei o golpe.
Nicole Rodrigues