quinta-feira, 24 de março de 2011

Roxo


Beijo os teus olhos. O castanho e o roxo
mesmo sem entender porque
ele insiste em te marcar como um boi.

Nicole Rodrigues

terça-feira, 15 de março de 2011

Herança maldita


Ainda lembro dos ecos dos meus berros e do silêncio do choro dela.

Tudo por causa das meias, e das cuecas, e das camisas… do meu pai.

Morar com pai que ainda mora com os pais tem dessas coisas. A responsabilidade é dobrada, de baixo para cima, e tudo faz lembrar que o seu lar não é aquele, e nem perto da li. Como poderia ser? Se fosse, você não estaria lá, aos berros, por causa das meias, cuecas e camisas… do seu pai.

O domingo tinha tudo para ser bom não fosse o fato de que o meu domingo era de folga e o dela de preparação para os outros filhos, outros netos, e outros vultos, que vira e mexe faziam questão de zunir em forma de visitas. E dá-lhe faxina, banquete, decoração, detalhes bestas para as bestas das visitas. E lá se ia o meu domingo de sossêgo, de descanso, longe da faculdade.

Na segunda parte do filme ela colocou a cara na porta e disse: tá ocupada? Respondi que não, que era só um filme, mas que se ela precisasse de ajuda era só me dizer que eu iria ajudar. Não, não. Não preciso de ajuda. Ela dizia, já em movimento, vasculhando as paredes em busca de teias de aranha.

Terceira parte do filme: falta muito para acabar? Não vó, só mais uma parte. O que a senhora precisa? Quer que eu lave a louça? Não, a louça eu já lavei. O que é então? Ah, tem sempre uma coisinha aqui e outra ali. Casa minha filha é que nem criança, não dá descanso pra ninguém. Mas vó, se você parar de procurar o que fazer talvez o serviço acabe. Eu já lavei o banheiro, já limpei a garagem e já molhei as plantas e você ainda tá aí, de lá pra cá… Ééé, eu sou a neurótica por limpeza, já sei, já sei... quer saber? Deixa pra lá. Deeeixa que eu faço tudo sozinha. Mas tudo o quê? Eu não já fiz o que você pediu e não acabei de perguntar se você precisava de ajuda? Ahhh, mas se for fazer de má vontade é melhor não fazer. Não é má vontade vó, mas é que parece que você não sabe ficar quieta um minuto. Tem que estar fazendo alguma coisa o tempo todo! Mas, minha filha, é que tem muita coisa. A casa é grande, sou eu sozinha pra fazer tudo... Vó, eu não tô aqui pra te ajudar? Já não fiz um monte de coisas hoje? Que história é essa de fazer tudo sozinha? Nicole, deixa do jeito que está! Deeeeixa e pronto. Acabou. Não vó, não acabou nada. Eu só não entendo o que é que tem de tão importante pra fazer que eu não posso nem sentar duas horas no sofá pra assistir um filme no fim de semana sem me sentir culpada porque eu vejo você pra lá e pra cá com balde, vassoura e paninho o tempo todo. O que diabos tem mais pra fazer??? Com um risinho na cara e se apoiando no cabo da vassoura ela diz: O que tem? O que tem? Tem as roupas do seu pai que eu passei. Mas eu já tirei de cima da cama e coloquei no guarda-roupa dele! É, é... colocou. Mas a gaveta de meias dele está uma bagunça e as camisas do cabide também. Custa ir lá e dar uma arrumadinha pro seu pai? Vó, como assim??? Tuuudo o que é de gaveta eu coloquei na gaveta e tudo o que é de pendurar eu coloquei nos cabides, o que mais a senhora quer que eu faça? Mas cueca junto com meia, tudo misturado na gaveta, e as camisas então... as de manga comprida com as de manga curta, as do trabalho com as de sair. Sabia que nessas revistas a gente vê tudo separado por cor?

Eu precisei respirar fundo antes de dizer: Vóóó pelo amoooooor de deus, tudo tem limite. Eu NÃO vou organizar a gaveta de meias do papai por quadrante. Um quadrante para as meias furadas, outro para as meias novas, outro para as de estimação! Não vou organizar as camisas por cor, por manga, nem por ocasião! Isso é coisa de gente louca!!! Além disso, eu não estou me matando de estudar para passar o meu domingo arrumando as gavetas de meias e cuecas do meu pai! Pára de querer me treinar! Eu não sou cachorro! Eu não quero aprender coisas de mulherzinha. Eu não quero casar! Eu nunca vou casar! Entendeu?

Exatamente nesse ponto da história eu ouvi as gargalhadas dele. Ele, o senhor meu marido, que me perguntou: então porque você arruma as minhas gavetas? Naquele exato segundo, e em completo estado de choque, me dei conta de que havia ganho aquela pequena batalha dominical anos atrás na casa de minha avó, mas que, na verdade, foi ela quem venceu a guerra.


Nicole Rodrigues

domingo, 13 de março de 2011

Calendário



Você cava pacientemente,
penetra fundo
e me descama por dentro.

E eu me deixo aconchegar no abraço infinito
de braços tão longos quantos os dias
em que estivemos separados.
Nicole Rodrigues

sexta-feira, 11 de março de 2011

Catarse


Eu perderia todas as pessoas que amo se escrevesse o meu primeiro romance.

Dei-me conta disso outro dia. Escrevendo linhas cruéis sem parar. Quase que em transe. Quase que escrevendo o meu primeiro romance.
Nicole Rodrigues

sexta-feira, 4 de março de 2011

Peacock




Uma moça e um rapaz

carentes de infância
ilhados
janelas com cortinas
sempre fechadas
café da manhã e almoço
na hora marcada
bilhetes de amor
escritos às pressas
e louças lavadas
pelas mãos
da moça e do rapaz
carentes de infância
ilhados
janelas com cortinas
sempre fechadas.

Nicole Rodrigues

Castanho


Um tufo castanho,
cacheado,
macio
e suado...

Dia ou de noite?
Ninguém sabe.
Mas tu sabes que o colo é teu.
Nicole Rodrigues