terça-feira, 15 de março de 2011

Herança maldita


Ainda lembro dos ecos dos meus berros e do silêncio do choro dela.

Tudo por causa das meias, e das cuecas, e das camisas… do meu pai.

Morar com pai que ainda mora com os pais tem dessas coisas. A responsabilidade é dobrada, de baixo para cima, e tudo faz lembrar que o seu lar não é aquele, e nem perto da li. Como poderia ser? Se fosse, você não estaria lá, aos berros, por causa das meias, cuecas e camisas… do seu pai.

O domingo tinha tudo para ser bom não fosse o fato de que o meu domingo era de folga e o dela de preparação para os outros filhos, outros netos, e outros vultos, que vira e mexe faziam questão de zunir em forma de visitas. E dá-lhe faxina, banquete, decoração, detalhes bestas para as bestas das visitas. E lá se ia o meu domingo de sossêgo, de descanso, longe da faculdade.

Na segunda parte do filme ela colocou a cara na porta e disse: tá ocupada? Respondi que não, que era só um filme, mas que se ela precisasse de ajuda era só me dizer que eu iria ajudar. Não, não. Não preciso de ajuda. Ela dizia, já em movimento, vasculhando as paredes em busca de teias de aranha.

Terceira parte do filme: falta muito para acabar? Não vó, só mais uma parte. O que a senhora precisa? Quer que eu lave a louça? Não, a louça eu já lavei. O que é então? Ah, tem sempre uma coisinha aqui e outra ali. Casa minha filha é que nem criança, não dá descanso pra ninguém. Mas vó, se você parar de procurar o que fazer talvez o serviço acabe. Eu já lavei o banheiro, já limpei a garagem e já molhei as plantas e você ainda tá aí, de lá pra cá… Ééé, eu sou a neurótica por limpeza, já sei, já sei... quer saber? Deixa pra lá. Deeeixa que eu faço tudo sozinha. Mas tudo o quê? Eu não já fiz o que você pediu e não acabei de perguntar se você precisava de ajuda? Ahhh, mas se for fazer de má vontade é melhor não fazer. Não é má vontade vó, mas é que parece que você não sabe ficar quieta um minuto. Tem que estar fazendo alguma coisa o tempo todo! Mas, minha filha, é que tem muita coisa. A casa é grande, sou eu sozinha pra fazer tudo... Vó, eu não tô aqui pra te ajudar? Já não fiz um monte de coisas hoje? Que história é essa de fazer tudo sozinha? Nicole, deixa do jeito que está! Deeeeixa e pronto. Acabou. Não vó, não acabou nada. Eu só não entendo o que é que tem de tão importante pra fazer que eu não posso nem sentar duas horas no sofá pra assistir um filme no fim de semana sem me sentir culpada porque eu vejo você pra lá e pra cá com balde, vassoura e paninho o tempo todo. O que diabos tem mais pra fazer??? Com um risinho na cara e se apoiando no cabo da vassoura ela diz: O que tem? O que tem? Tem as roupas do seu pai que eu passei. Mas eu já tirei de cima da cama e coloquei no guarda-roupa dele! É, é... colocou. Mas a gaveta de meias dele está uma bagunça e as camisas do cabide também. Custa ir lá e dar uma arrumadinha pro seu pai? Vó, como assim??? Tuuudo o que é de gaveta eu coloquei na gaveta e tudo o que é de pendurar eu coloquei nos cabides, o que mais a senhora quer que eu faça? Mas cueca junto com meia, tudo misturado na gaveta, e as camisas então... as de manga comprida com as de manga curta, as do trabalho com as de sair. Sabia que nessas revistas a gente vê tudo separado por cor?

Eu precisei respirar fundo antes de dizer: Vóóó pelo amoooooor de deus, tudo tem limite. Eu NÃO vou organizar a gaveta de meias do papai por quadrante. Um quadrante para as meias furadas, outro para as meias novas, outro para as de estimação! Não vou organizar as camisas por cor, por manga, nem por ocasião! Isso é coisa de gente louca!!! Além disso, eu não estou me matando de estudar para passar o meu domingo arrumando as gavetas de meias e cuecas do meu pai! Pára de querer me treinar! Eu não sou cachorro! Eu não quero aprender coisas de mulherzinha. Eu não quero casar! Eu nunca vou casar! Entendeu?

Exatamente nesse ponto da história eu ouvi as gargalhadas dele. Ele, o senhor meu marido, que me perguntou: então porque você arruma as minhas gavetas? Naquele exato segundo, e em completo estado de choque, me dei conta de que havia ganho aquela pequena batalha dominical anos atrás na casa de minha avó, mas que, na verdade, foi ela quem venceu a guerra.


Nicole Rodrigues

6 comentários:

adilia disse...

De facto, Nicole, é lamentável mas é verdade, nós ganhamos algumas batalhas mas a guerra para já parece perdida. De qualquer modo há uma coisa que nos devemos proibir de perder, e essa coisa é a esperança.
Abraço, Adília
Gostei muito do seu texto, voce escreve bem e consegue passar a mensagem através da narrativa.

Juliana Migliorati disse...

NÉ tbm prestei atenção nisso rsrsrs.. Maridos e parentes seres de outro planeta rsrsrs...Nick minha lindona saudades, e nunca diga eu nunca! Pq quem fica jogando p/ auto recebe na cara rsrsrs... Minha mãe sempre diz kkkk... Bjãoooo

Nicole Rodrigues disse...

Adilia, obrigada pela sua visita e gentil comentário :) Volte sempre e não perca a esperança! Se a gente não batalhar, quem o fará por nós?

Juliana, eu já mordi a língua! Casei, não casei? Mas não arrumo mais a gaveta dele desde o dia em que escrevi esse texto(juro!)rsrsrs.

beijos!

Juliana Migliorati disse...

Puxaaa é alto rsrsrs... kkkk.. perdão pelo erro rsrsrs....
Agora vc deveria sim arrumar ninguém faz as coisas tão bem quanto as esposas rsrsrs... bjãooo

Nicole Rodrigues disse...

Ju, deveria? DEVERIA? MAS nunca, e agora digo nunca de boca cheia.

Sabe por que os maridos não fazem as coisas melhores do que as esposas? Porque a deixa não deixa eles fazerem. Quem não tem costume de fazer não se aprimora. Não caia nessa armadilha de contos de fadas querida. Divida as tarefas que tiver que dividir e cada um que cuide de suas coisas. Afinal de contas ninguem nasceu grudado! ahahaha

beijos

Juliana Migliorati disse...

Tá certo vou falar p/ ele arrumar minha gaveta tbm kkk...
Bjão