quarta-feira, 27 de abril de 2011

06:67


Um tumor bem grande
atrás do olho esquerdo
para espantar de vez
o medo de seguir em frente.

Nicole Rodrigues

domingo, 24 de abril de 2011

Inteiriços do mar


Nadei, nadei, nadei até decidir me afogar
em todos os versos e prosas dos livros que pude comprar.
Em cada um deles encontrei um par de amigos
invisíveis, inúteis e inoperantes
condenados ao mofo e ao pó da estante.

Tratei de ressuscitar
quando a raiva transbordou da mordaça
que insistia em me calar.
Letras, rimas, pontos e vírgulas:
inteiriços salva-vidas do mar.

Nicole Rodrigues

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Borboletas de nascença

 
É desumano. Acordar todas as manhãs com a esperança de que ao abrir os olhos ele estará lá. O pedaço perdido, que parece me faltar, mas que insiste em existir no ventre de tantas mulheres por aí. Como uma borboleta de nascença que encanta e hipnotiza por toda a vida; um beija-flor que fertiliza os úteros e os cérebros do mundo desde o primeiro buá.

Mas eu acordo e ele não está lá. O maldito pedaço, que mesmo que eu encontrasse não me serviria de nada porque não cabe, não encaixa, simplesmente não faz parte de mim. Seria um pedaço forçado, atrasado, deformado. E assim eu não quero, nem nunca quis. Nunca precisei querer... até agora. Agora preciso, agora sou mais um. Não sou só eu, eu sou o outro também. E o peso do outro me obriga a desejar um sexto dedo, um terceiro braço. Um desejo que em mim e para mim não é natural, mas que se brotasse da noite para o dia seria útil, prático. Tornaria tudo mais fácil e faria o outro mais feliz. Mas e eu?

Eu me rendo à exaustão e desejo secretamente que ele cresça, o dedo, o braço, ou o outro, tanto faz, desde que seja logo, que todo o resto faça sentido, que a falta pare de sangrar, que a culpa pare de jorrar e que eu faça as pazes comigo mesma. Então toda noite eu rezo, mesmo sem rezar, para que o medo não tome conta de mim quando eu acordar.

Nicole Rodrigues




domingo, 10 de abril de 2011

Giz vermelho



O fim já vem escrito no sangue, que bombeia dia e noite a hora de partir.


Nicole Rodrigues

Indolor


Quando a minha mãe não era a minha mãe,
ela era eu.
Não queria filhos,
queria um marido bom,
um futuro brilhante
e um último suspiro sossegado
e indolor.

Nicole Rodrigues

Vela cigana


Carrego uma vela cigana sempre acesa dentro de mim.

Nicole Rodrigues

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Empty uterus


My first born will never be born
and will never be mine.
He or she will only exist
in the uterus of somebody
I did not dare to be.

Nicole Rodrigues