quinta-feira, 14 de abril de 2011

Borboletas de nascença

 
É desumano. Acordar todas as manhãs com a esperança de que ao abrir os olhos ele estará lá. O pedaço perdido, que parece me faltar, mas que insiste em existir no ventre de tantas mulheres por aí. Como uma borboleta de nascença que encanta e hipnotiza por toda a vida; um beija-flor que fertiliza os úteros e os cérebros do mundo desde o primeiro buá.

Mas eu acordo e ele não está lá. O maldito pedaço, que mesmo que eu encontrasse não me serviria de nada porque não cabe, não encaixa, simplesmente não faz parte de mim. Seria um pedaço forçado, atrasado, deformado. E assim eu não quero, nem nunca quis. Nunca precisei querer... até agora. Agora preciso, agora sou mais um. Não sou só eu, eu sou o outro também. E o peso do outro me obriga a desejar um sexto dedo, um terceiro braço. Um desejo que em mim e para mim não é natural, mas que se brotasse da noite para o dia seria útil, prático. Tornaria tudo mais fácil e faria o outro mais feliz. Mas e eu?

Eu me rendo à exaustão e desejo secretamente que ele cresça, o dedo, o braço, ou o outro, tanto faz, desde que seja logo, que todo o resto faça sentido, que a falta pare de sangrar, que a culpa pare de jorrar e que eu faça as pazes comigo mesma. Então toda noite eu rezo, mesmo sem rezar, para que o medo não tome conta de mim quando eu acordar.

Nicole Rodrigues




Um comentário:

Amapola disse...

Bom dia, Nicole.

Não sei se entendi bem, mas parece que sofre pelo desejo de ser mãe.
Quem sabe, um dia isso se resolva, e você viverá muitas alegrias.

Tem tanto geito de se sentir mãe. Mãe é amor e proteção. Se não tiver jeito, depois de seu coração se conformar, a adoção é um ato divino, quanto o de gerar e dar a luz a um filho.

Um grande abraço.
Maria Auxiliadora (Amapola)