domingo, 29 de maio de 2011

Mosaico


Apenas um tapete velho,
vermelho,
puado,
bordado,
sob a mesa de mosaico
e o abajur pintado a dedo.

Vazia,
a tua casa e a minha.
Por que o vazio Virgínia,
e não o cheio?

Nicole Rodrigues

Lacrimosa


I
A minha tristeza não é menos,
não é meio,
não é fim,
é infinita.

II
Deixe-me aqui com os meus ais.


Nicole Rodrigues

Fim da linha




Hoje vislumbrei o tempo mais vasto e duradouro que existe.
O dos últimos dias de vida.
Quando o marido já está morto e os filhos criados.
O tempo em que não há mais tempo a perder.
O tempo em que não há.
E finalmente entendi o desejo de ser imortal.

Nicole Rodrigues

domingo, 22 de maio de 2011

Olavo

 

I keep seeing you alone,
in the dark...
 
Is it you or me?
So scared.
 
Where did you go?
 
I hope I am wrong
and it’s nice where you are.

Nicole Rodrigues

sábado, 21 de maio de 2011

Herdeira



I
Os meus dedos da mão são iguaizinhos aos seus.
Ao observá-los escrevendo essa elegia eu choro
de saudade do pouco tempo que passamos juntos
e do muito que passamos separados.


Lembro das risadas e das brigas,
da rabugice e dos assobios,
das sandálias de couro e dos passos rápidos.


Eu já sabia que estavas prestes a partir
mas não sabia o quanto iria doer.
E a teimosia que herdei de ti
e que antes me assombrava
agora é o que me fortalece.


II
Ontem à noite, quando me visitaste em sonho,
eu já sabia.


Os teus olhos tristes e o abraço demorado
diziam tudo.


Quisera eu nunca ter acordado
para poder te abraçar para sempre.

Nicole Rodrigues

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Carne vermelha


Suco gástrico, ácido, saliva, enzimas e tripas fedem. É a carne vermelha que apodrece. E isso é tudo o que se sabe, o que se conhece, e sobre o qual se tem certeza. Esta é a única verdade universal, a única chance. Depois da morte ninguém sabe. Nem você, nem eu; nem o seu deus, nem a ausência do meu. É buraco negro, desconhecido, mistério absoluto. Desista e viva.

Nicole Rodrigues

Lava


Do choque entre dois corpos fez-se o fogo.
E a lava não era branca, nem creme, nem marfim.
Era lilás.
Do que era feita?
Tanto faz.


Nicole Rodrigues

sábado, 14 de maio de 2011

Profetas


É preciso olhar a vida
Com os dois olhos que se tem
Antes de dizer
Já sei!
Há deus.
Adeus...
Amém.

Nicole Rodrigues