terça-feira, 24 de abril de 2012

Fulminante




Eu tenho tanto medo de ficar cega. Mais até do que de morrer. Porque quando defunta já não importará, mas viva e cega sei que não demora muito e hei de morrer com o coração ainda batendo só de tristeza. Viver pra não ver as cores, luzes, texturas, camadas, curvas, asas e pegadas? Prefiro tombar agorinha mesmo – fulminante – de olhos bem abertos, para todo o sempre.
Nicole Rodrigues

Vitralzinho




I

É um tapa na moleira atrás do outro. Bando de animais! Pra quê tanta grosseria? E lá vou eu responder e dar uma lição de como ser ainda mais grossa. Pra quê, meu deus, pra quê? 

II

Já até mandei cortar essa minha língua afiada para o meu bem e o seu. Mas agora não adianta mais. Está feito. E eu bem que tento ficar mais formosa com o tempo. Mas não, fico mais rabugenta, carrancuda e azeda. As pessoas me irritam. 

III

Posso me ouvir silenciando. Percorrendo as profundezas de mim mesma, procurando e fechando cada porta, cada janela, cada vitralzinho maldito, na ânsia de impedir que ruídos escapem por entre meus lábios.
Nicole Rodrigues