sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Pele de leão


Agora que voltaste,
conte-me sobre tuas aventuras além-mar.

Quantas hidras mataste? E quantas cabeças elas tinham?

A quantos naufrágios sobreviveste?
E que fim teve Helena?
Se é que teve algum.

Haja o que houver
mantenha-se longe das piras crematórias.
As chamas não são a saída!

Tua pele de leão e clava
hão de ser o bastante
para que o restante de tua vida
seja puro e pleno.

Os deuses já te receberam,
agora as páginas te esperam.
Eu também.

Nicole Rodrigues

Espreita



A tormenta não passa. Bate e volta sem cansar. Só quem se cansa sou eu dos estrondos delirantes. Mas é pela luz que me levanto − nos últimos tempos não mais me forçando, o que é bom. Bolsas de ar se formaram ao meu redor e agora respiro mais e melhor.

O teu regresso me alegra e pela alegria estou sempre à espreita, à espera, ansiosa.  Afasto a escuridão na esperança de que haja sempre espaço em minha vida para as coisas boas com as quais sonho. Já te disse que outro dia sonhei contigo?

Gosto demasiadamente de ti também, e espero que tu possas aprender a viver com a tua sombra, afinal de contas ela é parte de ti, e só existe se estiveres exposto à luz, que é onde deves sempre estar. Na claridade, e não no breu, meu amigo, é o teu lugar. O lugar de todos nós. Onde podemos ver onde pisamos, com quem andamos e para onde vamos. Procure a luz, meu querido, e fuja dessa tua escuridão.

Do lado mais claro do túnel estarei eu, a te esperar.

Nicole Rodrigues

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Longe de mim


Doravante apenas lapsos,
vãos e buracos existirão no lugar que um dia foi teu.

Tuas páginas falsas, criadas com o meu suor,
serão, uma a uma, apagadas pelo tempo.

Enquanto o meu pergaminho em andamento
desfrutará da eternidade que só os criadores
podem experimentar.

Nicole Rodrigues

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Surdina



Não mais consigo fazer de conta
que as páginas em branco
não importam.

Que história mais capenga essa nossa!
Tantas lacunas e quebra-cabeças...

O próximo capítulo seria a quatro mãos
se ao menos pudesse usar as tantas penas coloridas que te dei.

Papel eu sei que não te falta, então por que não podes tu
escrever sobre os momentos que um dia compartilhamos
e inventar todos os outros que deixamos passar?

Quantos poemas em forma de perdão terei de versar
para que tua ausência parta e tua presença ilumine meus dias?

Quantos gritos terei que emanar

para que tua voz ecoe nos meus ouvidos surdos de mãe?

Se eu perder o fôlego, ainda me restará o pulso
e usarei minhas lágrimas para selar tuas cartas.


Nicole Rodrigues