domingo, 30 de dezembro de 2012

Alvidez






De um lado a neve. As línguas enroladas, a vogais acumuladas, a alvidez da pele e do chão. O frio que toma conta, o outono que colore e a primavera que brota.

Do outro, o sol que brilha incansável. A melodia nativa, os velhos conhecidos, a terra vermelha e roxa. O calor que queima, a chuva que rega e a brisa que alivia.

Em mim, a confusão, a dúvida e o medo guardados em segredo.

Sigo teus passos. Para onde mais haveria eu de ir? Quando a paz que sinto vem de ti?


Nicole Rodrigues

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Geralda





Sequer me lembro da última vez que te vi. Quanto tempo faz? O tempo que não volta nunca mais. O que restou não foi a tua língua afiada, nem o teu olhar marcante, mas sim os rastros do teu pé tentando firmar a pegada. A tua vontade de continuar neste mundo.

Primeiro, foi a luta contra o cérebro que sangrou, depois contra o tubo que te alimentou e, por fim, contra a máquina que te fez respirar. O cansaço era demais e o teu coração falhou. Pobrezinha.

E o que foi feito da tua alma? Para onde ela foi? Será que um dia voltaremos a nos encontrar?


Nicole Rodrigues





quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Saliva


Saliva pouca
no céu da boca.
Será que passa?

 Nicole Rodrigues

Ágape



A lua,
cabisbaixa,
se agacha aos pés da montanha.


Nicole Rodrigues

Quatro-olho


 
Agora que sou quatro-olho
quem sabe não perco de vista
o que me é de direito.

Nicole Rodrigues

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Ricochete




Você atira
e ricocheia.

Uma marca roxa
bem no meio
do peito que era teu.

A dor é passageira,
mas a partida não.

Um passo após o outro e,
cambaleando, continuo


a rumar para longe
de ti.


Nicole Rodrigues

Outubro


 
O primeiro mês, em cinco anos, que não escrevo. Os abraços substituíram os versos. Não houve tempo para rimas, mas sobrou para prosas. Sorte a minha. Já que ao menos deste pude me despedir. O outro, que já se foi, me visitou um dia antes de partir, num sonho que de sonho tinha pouco e que era tristeza pura. Ele estava cansado. Havia desistido − não posso culpá-lo. Aquilo não era mais vida. Enquanto este, que cá ainda está, e que é a alegria em forma de gente, deseja muito continuar no meio de nós. E eu fico aqui pensando em como mantê-lo por perto por mais tempo. Talvez ainda dê jeito. Talvez ainda tenhamos tempo de deixar o adeus para depois.


Nicole Rodrigues

Tolice



Tolice é pra quem tem sangue nas veias,
tutano nos ossos
e saudade de quem ama.

Nicole Rodrigues