quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O lado de lá





É muito difícil assumir a liberdade que se pode ter em vida. E é difícil porque a liberdade representa o máximo absoluto da responsabilidade. A responsabilidade sobre si mesmo. Sobre a vida que se deseja ter verdadeiramente.

Numa vida como esta, permeada pela liberdade, não existem pessoas para se culpar pelas escolhas tomadas e pelos caminhos não seguidos. O peso de ser livre é tanto que só de pensar assusta. Muitos param ali mesmo, no susto, no pensamento, e dão meia volta. Mas, não tenho dúvidas, passam a vida ressentindo não terem ido, não terem feito, não terem vivido, como a voz interior lhes sussurra, todos os dias.

Covardia? Antes achava que sim, mas hoje vejo que não. São apenas escolhas. Caminhos que levam a destinos bem diferentes, com pessoas diferentes, em lugares diferentes, vivendo de um jeito diferente. Não há acerto, nem alvo, apenas o querer. Persegui-lo ou reprimi-lo é, e sempre será, uma opção. Não importa quão difícil ela seja.

O que antes era preto e branco para mim, hoje é uma paleta de cores cinzas. E são tantos os cinzas deste mundo. Tantas as coisas que não se encaixam aqui nem lá, mas que, nem por isso, deixam de existir. Talvez por isso hoje eu entenda quem decide ficar. Ou quem não parte mais de uma vez, com medo de se partir ao meio no meio do caminho.

II

Escolhi a responsabilidade absoluta sobre a minha vida um pouco tarde. Certamente mais tarde do que eu gostaria, mas, hoje, aos trinta, me alegro por ter partido e me apavoro com o destino que tenho traçado para mim. A liberdade é tão grande que mais parece um abismo.

Às vezes, o regozijo é absoluto e sinto a alegria me inflar de dentro para fora. Noutras, o excesso de ar puro é tamanho, que chega a queimar meus pulmões. Puro medo. É quando quase chego a desejar que o mesmo peso que curva o mundo pudesse ser sentido por mim desde já. Quase. Para que meus fracos ossos anunciassem agora mesmo, na juventude, a dor que deixei para depois. Para que houvesse tempo de comprar cortinas e cobrir as janelas que exibem a vida lá fora - a vida que sempre me seduziu - e viver a vida em sua forma domesticada - a vida que sempre temi viver. Mas, pelo menos por enquanto, não me sinto inclinada a desistir deste caminho tão outro que se revela igualmente mais rico e difícil do que eu havia esperado.

III

O que me mantém nesta trilha é a certeza dos momentos mágicos, e raros, que já vivi e que não teriam sido possíveis de outra maneira; o frio na barriga, quando penso em tudo o mais que ainda hei de explorar neste mundo, e a esperança de que quando a dor insuportável chegar, já bem lá na frente, no finzinho de minha vida, eu olharei para trás e direi: “o que me dói hoje, embora alucinante, é suportável.” E só será suportável porque tudo o que terei visto, feito e vivido, será grande demais para contar no pouco tempo que terei, mas estará gravado na memória e nas muitas páginas que escreverei.


Com sorte, haverá tempo de costurar almofadas à minha volta, para proteger a mim mesma do impacto de minhas decisões. E se, no meu último suspiro, meus olhos não encontrarem meus entes ou amigos queridos, meu coração deixará de bater completamente partido, mas levarei de consolo a imagem de uma pilha de livros. Todos paridos por mim. 



Eu quero ver o lado de lá.
Não o da morte!
O da vida
– que poucos escolheram espiar.
Eu quero ver o lado de lá.

Nicole Rodrigues

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