segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Pós-moderno


Se tudo o que está quebrado é pós-moderno,
então a oficina de reparos é o inferno?

Nicole Rodrigues 

Túneis




I
Talvez seja mesmo simples assim. 
Nascemos para morar em túneis. 

II
Certas coisas devem permanecer incógnitas, 
ainda que incólumes no coração de quem as sente. 
O sentir não é desculpa para se fazer o que se quer, 
o corpo não é feito só de músculo vermelho pulsante. 

III 
O encontro de almas não é feito só de instantes. 

 Nicole Rodrigues

sábado, 6 de dezembro de 2014

Corante


O chão da cor de corante
coberto de folhas marrons.
Como pode a morte enfeitar tanto a vida?

Nicole Rodrigues

Aposento e aposentadoria


Um dia, num futuro não muito distante, serei dona de uma loja de livros parecida com esta. Um lugar pequeno, aconchegante e colorido. Um lugar encantado, com tapetes para todo lado, convidando os transeuntes a entrar e explorar o tesouro em forma de livros que será exibido nas paredes, prateleiras, pilhas e pirâmides, às quais decorarei e vigiarei como um cão de guarda a todo instante.
Nicole Rodrigues 


Magnetismo


Que estranho viver num mundo onde todo mundo anda com o telefone celular na mão. Inclusive eu. Outro dia, caí da escada e torci o pé porque não consegui esperar chegar em casa para checar meus e-mails numa tela grande, sentada, em segurança, no conforto da minha casa.

Um magnetismo maligno esse. Uma força que atrai e depois trai. Uma sensação constante de que algo muito importante deve ter acontecido ou está prestes a acontecer, e eu gostaria de estar lá: atenta, alerta, para ver tudo se revelar em tempo real à minha frente. Porque se não for essa a explicação, qual seria?

É como as relações tóxicas, das quais não se consegue ficar longe, ou ainda as platônicas, que não são necessariamente ruins, mas nem por isso são boas.

Um magnetismo enjoado, insistente. Uma resiliência irritante. Um desejo pulsante, que desequilibra a mente, acelera os batimentos e faz a carne tremer de desejo… de manter-se ligado. Ao celular e ao outro. Seja ele quem for. Seja ele de quem for. Esteja ele onde for. Mas com o tombo veio a cura. E a cura é deixar para lá.

Nicole Rodrigues 

Latte


O pano enrolado nos dedos
O leite espumando
E o café fervendo
Num latte perfeito.


Nicole Rodrigues